É muito difícil viver dentro da minha cabeça

02/06/2021


Uma vez minha mãe me disse que a Bíblia diz que esse mundo não é um lugar bom para se viver mesmo. Que Deus tem outro lugar pra gente, mas que é só pra depois, e que aquele negócio de os humilhados serem exaltados é só depois da morte.

Diferente da minha mãe, eu não sou grande seguidora da Bíblia ou de qualquer outro livro sagrado, mas eu tenho que concordar com essa parte, tá cada vez mais difícil ficar por aqui e eu me lembro desse diálogo com mais frequência do que costumava me lembrar antigamente. Hoje é uma daquelas noites difíceis, um pouco mais difíceis do que o normal. 

É muito difícil viver dentro da minha cabeça - e nesse mundo aqui de fora também. É muito difícil viver todos os dias com esse sentimento de urgência dentro do peito, com essa certeza de que tudo vai dar errado, com esse temor de que o pior está sempre por vir, está sempre me esperando virar a esquina, está sempre chegando e me tomando inteira pelo medo, me paralisando, me sugando, me consumindo.

Meu Deus, eu quero morrer, eu quero morrer, mas eu não quero morrer, tem tanta gente morrendo agora, eu não quero morrer, eu não posso morrer, não agora. Eu só quero que se abra um buraco no chão para eu entrar lá dentro e me esconder do mundo, me esconder das pessoas, me esconder das expectativas, das responsabilidades, da luta interna eterna. Será que eu posso morrer só um pouquinho, só por hoje? Talvez por amanhã também. Será que eu posso morrer só um pouquinho, por uma semana ou duas?

Eu não sei se isso vai passar de verdade, nem nessa vida, nem na outra. Eu não sei se é só fase, se foi só um tropeço, se tá tudo bem, se é assim mesmo, se já vai ficar tudo bem, vê? Eu não posso ter certeza disso porque minha cabeça não me deixa ter certeza de nada e é só por isso que eu tenho quase certeza de que nunca vai ficar mais fácil, porque ela sempre vai estar aqui, a minha cabeça. 

Será que quando a gente vai para o céu, a gente ganha outra cabeça?



Olhar altivo

    05/05/2021



      Eu amo você.

     Acho que é importante dizer isso, antes de qualquer coisa. Meu amor por você não diminuiu. Não é sobre isso. 

     Mas eu já te admirei mais.


     Às vezes penso que os caminhos que tomamos são incompatíveis. Não sei o que nos levou a isso, se foram caminhos que seguimos sem perceber ou se tínhamos alguma consciência. Acho que estávamos distraídos demais com todo aquele amor e as gargalhadas das tardes de sábado. Mas lá no fundo, no fim do dia, quando a noite chegava e me deixava sozinha, a consciência tomava conta de mim. Eu sabia que o futuro seria assim. Eu temia que o futuro fosse assim.


     E ele chegou, o futuro, como a montanha russa que mora dentro do meu estômago disse que chegaria. E chegou em forma de palavras, que ficaram ecoando em minha cabeça durante a semana inteira. Todas as noites, quando me deito no silêncio, as palavras que você disse gritam em minha cabeça. E elas machucam. Elas me ferem. 


     Sei que você não tem a menor ideia desses machucados que estão dentro de mim, que eu não consigo expor. Suas palavras aparentemente não eram ofensivas. Você nunca disse nada para me ferir. Pelo contrário, você sempre me cuidou. Mas as suas palavras me mostraram que aquelas mudanças que eu sempre temi, aquelas que você sempre dizia que não faziam sentido, enfim aconteceram dentro de você. Tudo aquilo que eu tinha medo que você se tornasse, você está se tornando. Eu sinto que está. Eu temo que esteja.


     Não vou dizer que foi por influência de quem diz isso há anos, você não é mais uma criança. Você pode filtrar o que ouve. Você pode refletir, pode discordar. Mas foi uma escolha sua. Você escolheu estar do lado oposto de onde estou, de onde gosto de estar. Agora sinto que criamos um cabo de guerra e sei que não sou forte o bastante para te puxar para o lado de cá, não mais. Acho que um dia eu tive uma grande força, mas quanto mais tempo passo nesse mundo, mais sinto a força esvair-se e agora não sei se sou capaz de te convencer de coisa alguma. Mas eu queria ser, sabe? Eu queria ter força o bastante, queria que você reconhecesse minha força. Queria que reconhecesse o poder das minhas palavras, o poder das palavras dos que amam e dos que tentam ser justos. Queria que pudesse abrir seu coração para ouvir o que penso e o que sinto, sem aquele suspiro pesado e o revirar dos olhos. Queria que me ouvisse de verdade, de um jeito que você parou de ouvir há tempos.


     E eu não queria escrever sobre isso. Eu queria falar. Eu queria ter coragem o bastante para te dizer tudo o que estou sentindo, sem medo de que você entenda errado. Sem medo de que você tome atitudes que eu não quero tomar. Mas o medo agora é algo que vai me acompanhar para sempre, não é? Eu disse que isso aconteceria. Eu disse que esse caminho me traria medo para sempre.


     Mas não se preocupe, o fato de você ter escolhido um lado oposto ao meu não me faz te amar menos. Suas palavras corrosivas não destruíram o meu amor por você.


     Elas destruíram o seu amor por mim?




Nem rei, nem valete

                                
       
  28/12/2020

Tenho notado que passei os últimos dias (ou seriam os últimos meses?) me esforçando para não notar esses detalhes pelos cantos. Essas coisinhas escondidas atrás das cortinas, embaixo dos tapetes, nas frestas das portas. Mas eles estão aqui, eu vejo que estão.

Os velhos hábitos voltaram.

Aquele sentimento antigo de angústia e solidão, aquela amargura que envolve a alma e afoga o coração. Aquela sensação tão familiar.

Quando foi que me deixei convencer de que eu não era mais um Curinga?

Aquele que não é oito, nem nove, nem rei, nem valete. Aquele diferente de todas as cartas do baralho. Que todos enxergam como um bobo da corte e que poderia ser retirado do monte, sem que ninguém sentisse falta. Quando foi que me esqueci disso?

Durante os dias que não foram vividos, mergulhei nas palavras novamente. Nas palavras escritas, nas palavras lidas, em todas as palavras, e foi assim que me lembrei. Mergulhei de novo em tudo o que costumava mergulhar e acho que acabei mergulhando de novo também nas águas movediças. Ops. Foi sem querer, eu juro.

Foi sem querer, mas me afoguei de vez. Continuo vivendo os dias que não foram vividos, enquanto todos os outros já voltaram a viver. Parece que voltei a viver naquele canto. Ninguém enxerga o que eu enxergo, ninguém entende minhas palavras. É como se eu falasse outra língua. Eu tento expressar o que sinto, tento dizer, tento me abrir. Mas eles rolam os olhos. Suspiram com impaciência e eu me fecho de novo. Como nunca me fechei antes, talvez.

Não acho que eu tenha salvação. Eles nunca vão enxergar o que eu enxergo, nunca vão entender o que sinto e como essa angústia é dolorida e como ela me mata pouco a pouco, a cada dia. Eles nunca vão entender. Eu sou um curinga, o bobo da corte, a carta que sobra, aquela que não tem par. Que não tem grupos. Eles são reis, valetes, As, oitos, noves. Eles são eles. Eu não faço parte deles. E eu não faço parte dele.

No fim, quando todo o baralho se esparrama pela mesa, eu não consigo mais ignorar o fato: um dia, eu sei, um dia eu mesma terei que me dar a cartada final.



É que eu sinto muito


12/09/2020




     3:40 da manhã e eu penso que esse deve ser um recorde da insônia.

     Insônia: 

    substantivo feminino

     Falta de sono.

     Talvez eu não devesse chamar de insônia, afinal. O sono existe, ele está lá. Ele está aqui. Ele está na ardência dos olhos durante todo o dia, na dor de cabeça, na resposta para aquela pergunta que de tempos em tempos ele me faz: e esses olhos vermelhos?

     Mas eu deixei de dormir há algum tempo, há alguns meses. Quando voltei a sonhar. Eu deixei de dormir porque os sonhos fervilham em minha cabeça e eu não consigo parar, eu não consigo descansar, eu não consigo deixar de ouvir aquelas vozes que sussurram ilusões. E eu as respondo. Eu respondo que sei que elas estão mentindo, mas que estão mentindo tão docemente que eu quase acredito. Eu quase acredito em todos aqueles sinais do universo. Eu quase acredito que aquele lugar onde eu sempre quis chegar possui um caminho de tijolos amarelos. 

     Mas por fim, eu não me deixo acreditar, é claro. Eu não posso. Preciso matar os sonhos antes que eles me matem por completo, antes que eles tirem meus pés do chão e me façam cair. Porque a queda dessa vez seria insustentável, entende? Eu não sei se você entende realmente. Como eu poderia me explicar?

     É que eu sinto muito.

     Eu sinto tanto, a todo momento, sobre todas essas coisas do futuro, sobre todas aquelas do passado e sobre esse presente pausado, inexistente, insuportável. Eu não sei por quanto tempo mais vou conseguir viver nesse presente inabitável. Eu olho o calendário todos os dias e conto os meses nos dedos da mão, conto os meses que faltam e os meses que já se passaram desde que começamos a viver os dias em que ninguém viveu. Eu conto e faço planos para o futuro. Mil planos de tudo o que vou fazer quando eu voltar, mil planos de tudo o que vai acontecer, mil planos que eu com certeza alcançaria, se ao menos eu... Se eu... Se eu não fosse quem sou.

     Eu tentei me explicar para vocês. Mas minhas palavras são sempre batidas no liquidificador e dependendo da velocidade da mistura, não é possível mesmo distingui-las no final. Eu não os culpo por não me entenderem. É que são tantas as coisas que sinto que nem sei como colocá-las para fora de forma que elas não se embaralhem. Eu sinto muitas coisas que não digo e digo tantas coisas que não escutam.

     Todos os sonhos se transformam em pesadelos ao fim da noite. É assim que tem que ser. É assim que preciso encarar, para que eu nunca me esqueça da realidade da alma humana. Para que eu nunca me esqueça de que não há mão para segurar (e não pelas mãos serem ruins, mas por esse não ser o papel delas). Para que eu nunca me esqueça de que no fim, sempre seremos apenas um e que por isso não devo tentar voar alto. 

     Ninguém vai me segurar para que eu não caia no chão.


Cigarra

09/06/2020


Esse texto não é para que você leia, meu amigo. Não é para que você ouça.

Esse texto é para que eu fale. É só para que eu fale.

Há quantos anos nos conhecemos? Você se lembra do dia em que nos conhecemos? Já faz tempo, mas eu me lembro que gostei de você desde o primeiro momento. Talvez porque eu sempre gosto das pessoas no primeiro momento (e me esforço para que não seja apenas no primeiro momento). Eu gosto de pessoas, não é? Eu costumava sempre gostar das pessoas.

Eu acho que você também gostou de mim já naquele dia. Quero dizer, você gosta de mim, não gosta? Eu costumava acreditar que você gostava.

Eu me pergunto se nós já éramos assim naquela época ou se fomos nos formando e transformando ao longo do tempo. Eu não me lembro de ter esse sentimento agridoce naquele tempo. Talvez ele tenha surgido conforme eu mergulhava nessas águas profundas e movediças que existem dentro de mim, das quais já não consigo mais sair. Sei que não sou uma boa companhia na maior parte do tempo. Sei que escolho todas as palavras erradas. Sei que causo ferimentos aos montes ao meu redor. Mas eu não sei como não ferir.

Te dediquei palavras sangrentas porque me senti ferida por você, o que não é uma justificativa plausível, eu sei. A gente podia ser tão parecido. Gostamos de muitas coisas em comum, sentimos tudo à flor da pele, entramos os dois naquela jornada de autoconhecimento e enfrentamento de traumas, ao mesmo tempo. Nós dois escrevemos. Escrevemos sobre nossos machucados mais profundos, sobre nossos passados, sobre o mundo e sobre o futuro. Nós dois sangramos por coisas parecidas em várias ocasiões. Por que a gente é tão diferente então?

Talvez tenha sido pelas coisas que você viveu enquanto crescia e pelas coisas que eu vivi enquanto envelhecia. Pelas coisas distorcidas que nós dois aprendemos com quem não sabia ensinar. Eu tento não te culpar pelas suas decisões erradas e tento não me culpar pelos meus atos impensados, mas às vezes não consigo. Tenho uma incrível dificuldade em aceitar nossas diferenças e, sobretudo, suas indiferenças. Quando você não se importa. Quando você rola os olhos. Quando você se ofende por eu dizer que você não se importa. Quando você olha para dentro tão profundamente que parece não conseguir olhar para fora nunca mais em sua vida. E eu, que vivo no outro extremo, que me machuco por não conseguir olhar para dentro de mim mesma, não consigo acompanhar sua lógica e seu ritmo. Somos extremos de uma mesma sinfonia. Eu, autodestrutiva. Você, autocentrado.

No dia do seu aniversário, quis te comprar um presente. Fiz uma lista de possibilidades e nenhuma delas se encaixava no meu atual emaranhado de problemas financeiros. Pensei em comprar mesmo assim. E aí lembrei daqueles momentos das sessões de terapia sobre o autosacrifício supérfluo. Dei dois passos para trás e desisti das compras. Senti culpa. Senti culpa por dois dias seguidos. Senti culpa como em tantas outras vezes, como quando você me presenteou em outras ocasiões. Você não iria sentir culpa, iria? Você não iria sentir culpa.

Eu escrevo para que eu não fale demais, mais do que já falei. Para que a gente não se machuque mais. Eu escrevo porque não saberia dizer o que sinto com as palavras certas, porque não saberia dizer que toda a minha revolta e toda a minha tristeza diante da sua neutralidade também é... Amor. Será que você entenderia? Será que entenderia que tudo isso é porque sinto amor, acima de todas as coisas?

Eu não acho que eu saberia dizer.

Eu não acho que você saberia entender.

 


A ressaca do mar

   28/04/2020



     Hoje a tristeza foi tão grande que não consegui me desgrudar da minha própria pele para escrever outras histórias.

     A tela em branco me cobra, vazia. Mas me permiti dedicar o dia de hoje apenas ao espaço cheio aqui de dentro. Hoje o vazio foi tão grande que não houve espaço para mais nada.

     Curioso como uma pequena fagulha pode ocasionar um incêndio gigantesco. A faísca me fez enxergar de novo, me fez rever onde eu estava antes dessa pausa, dessa grande pausa. E o lugar onde eu estava era doloroso e hoje eu me lembrei por quê.

     Eu estava indo embora.

     Talvez eu estivesse indo até tarde demais. Já faz tanto tempo que não sinto que pertenço a esses lugares, a esses papéis, a essa vivência. Mas me agarrei com todas as forças porque sabia que se eu fosse embora dali, teria que ir embora de todas as coisas também. Eu estava indo embora, mas sem querer ir de verdade. Eu estava escapando, escorregando, caindo sem querer.

     Mas aí veio a pausa. E com a pausa, era impossível perceber que eu estava indo embora, porque ninguém podia mais ir a lugar nenhum mesmo. Até eu me esqueci de que estava indo. Fiquei. Fiquei por um tempo, fiquei como ficava antigamente, fiquei tranquilamente distraída, achei que fiquei inteira. Mas hoje a fagulha se acendeu e eu percebi de novo que estava partida ao meio, percebi como eu tinha escorregado, como estava distante da proximidade de sempre. Não existia mais nada daquilo para mim. A pausa camuflou o fato de que me mandaram embora, mas eu me lembrei. E agora não consigo me esquecer de novo.

     Quando tudo isso chegar ao fim, será o meu fim também? Será que a pausa renovou minhas chances ou voltaremos exatamente ao ponto em que paramos, onde eu estava escorregando pelo precipício? Eu não quero ir embora, mas não sei mais como ficar. Não sei se posso ficar, se me permitem ficar. Se eu suporto ficar... Não sei se há espaço para mim ou se terei que me espremer e me encolher como um peixe fora d'água que ainda tentar respirar em uma pequena poça. Não sei se terei ar, se terei fala, se terei importância, se lembrarão de mim.

       Não sei se terei amor.

     

Cais/Caos

24/03/2020



     - Não queria ter voltado aqui - disse ela, quando se encontrou novamente sentada em frente à janela aberta para o mar.

     - Eu sei.

     - Eu estou tentando não voltar para esse estado, você sabe. Estou tentando de verdade, de verdade mesmo.

     - Eu sei - a outra voz respondeu, encarando a paisagem à frente. Como nas outras vezes, até o mar estava silencioso. - Mas eles não sabem disso. Não se esqueça de que eles não sabem.

     O olhar dela estava cheio, mas não derramava. Ela não conseguia derramar mais nada, apenas sentia seu coração doendo absurdamente. O silêncio fora de si reinava, as areias intactas.

     - E se eu tentar explicar a eles?

     Ele deu de ombros

     - É como te disse na última vez. Eles não são capazes de enxergar como você enxerga e não é culpa deles. Nem sua. Apenas não é possível.

     - De nenhuma forma?

     - De nenhuma forma.

     Mais silêncio.
   
     - Às vezes eu ainda penso muito em ir até lá - ela confessou, apontando com a cabeça para o oceano. - Sei que machucaria alguns, mas às vezes eu sinto que meus pés já estão lá, molhados. Às vezes eu sinto que na verdade não machucaria ninguém...

     - Talvez não.

     O pensamento dela vagou.

     - Eles vão embora, não vão? Mais cedo ou mais tarde, eles todos vão embora.

     - Vão.

     - Eu não acredito que poderei ser feliz quando eles forem.

     O silêncio, sempre úmido e pegajoso. O vento não soprava, o ar estava quente, o oceano lá fora era quieto e impiedoso, em sua imensidão.

     Quando a voz dele saiu, era grave e firme.

     - E você era feliz até agora?



   

Lácero

06/03/2020



Era uma fábrica de última tecnologia, onde todos os robôs eram construídos de forma completamente automática. Um lote após o outro, os homenzinhos de aço e ferro saíam com todos os componentes que precisavam para realizar qualquer tarefa no mundo. É claro, como todo o processo era automatizado, não havia ninguém para decidir quantos robôs deveriam ser feitos, para onde cada um deveria ir ou qual função deveria cumprir. Mas, inteligentes como eram, cada um deles logo econtrava um ofício e o cumpria com maestria. Ninguém ficava para trás.

Exceto...

Bom, houve um dia em que algo aconteceu. Não houve alarde, ninguém chegou a perceber (já que máquinas e robôs não percebem coisa alguma), mas um robôzinho saiu da última esteira da fábrica com uma pecinha a menos. Nem mesmo ele chegou a perceber, pois o buraquinho onde a peça deveria estar ficava bem dentro dele. Por fora, todos os parafusos e engrenagens estavam completos. Ele saiu da fábrica em um dia ensolarado, como todos os outros robôs. Andou pelas ruas em que todos andavam. Encontrou um prédio em construção onde vários homenzinhos de aço e ferro marretavam e soldavam, lixavam e cortavam.

Imediatamente, passou a marretar também. Mas entortou uma viga sem querer. Outro robô rapidamente consertou o estrago e empurrou o robôzinho para longe. Ele não entendeu nada (não fora programado para entender), então apenas escolheu outra ferramenta - um martelo - e passou a trabalhar novamente. Após dois minutos, martelou a própria mão de aço, entortando levemente um dos dedos. Três robôs o empurraram até a saída.

Mais à frente, o homenzinho capenga encontrou outros androides sentados em grandes fileiras de computadores, digitando freneticamente. Sentou-se em um que estava vazio e passou a digitar. Três horas depois, seu computador gritou um alarme e o céu sumiu em fumaça. O robôzinho foi logo expulso novamente.

Vagando pelas ruas, aproximava-se de cada grupo de semelhantes que encontrava. Ninguém dava atenção a seus bips. Grupos iam e vinham, deixando-o sozinho, ou o olhavam das antenas às rodas dos pés e afastavam-se. Ele não entendia, todas as suas peças visíveis eram exatamente iguais às dos outros de sua espécie, mas sentia que algo estava errado. Sentia que algo estava faltando. Procurava por todo o seu corpo de lata, mas aparentemente tudo estava lá. Não entendia de onde vinha aquela sensação de vazio, mas se fosse capaz de sangrar, o buraco da pecinha dentro de si teria jorrado em sangue. Depois de colecionar idas e vindas, cansou-se de ser empurrado para todos os lados vazios.

Deitou-se em um banco ao ar livre. As nuvens escuras bradaram e a água derramou sem piedade. O robôzinho, feito de aço e ferro, não sabia que não podia se molhar. Ninguém sabia. E ninguém se importava, não foram criados para se importar. Ele ficou deitado durante uma eternidade, até perceber que não conseguia mais se mover, enferrujado que estava. As articulações não obedeciam mais. As outras máquinas passavam e não o enxergavam, ocupadas demais com suas importantes funções. Ele não morreu, não podia morrer, afinal, era um robô. Ficou ali, sentindo a chuva encharcar seu corpo supérfluo imortal, a água gelada pingando e escorrendo.

Pingando e escorrendo.

Pingando e escorrendo.

O gelo chegou finalmente ao buraquinho vazio dentro dele. Doeu. A água congelante era como o vento que bate em um machucado na pele cortada, que arde. Ardeu. E continuou a escorrer. Ardeu. Escorreu, ardeu, escorreu, ardeu... Para todo o sempre.



Nem fim, nem começo


25/12/2019


Sempre será difícil.

O timbre, que só posso escutar ao longe. Os sorrisos, que nunca chegam até mim. A pele intocada, o choque que não aparece mais, o espelho que nunca mais testemunhou coisa alguma.
O aperto, rápido e insuficiente.

Eu nunca vou me acostumar.

Durante um milhão de anos, eu imaginei todas as realidades que poderiam acontecer. E eu sabia que, além delas, havia mais um milhão e meio que eu nem era capaz de imaginar. Duzentos mil caminhos que poderíamos seguir, centenas de atalhos entre eles, dezenas de escapatórias, uma dúzia e meia de trilhas completamente opostas que cada um de nós poderia adotar.

Eu não errei.

Os anos correram muito mais rapidamente do que eu imaginei, é verdade. Mas correram por um dos caminhos que eu intui. De alguma forma, eu sempre soube que seria assim. Não, eu não diria que sempre soube. Eu sempre temi que seria assim.

Eu queria ter errado.

Eu nunca vou entender as barreiras erguidas, eu nunca vou aceitar que aquele era o máximo que eu poderia ter. Porque eu sei que não era e hoje eu vejo que não era, hoje eu vejo tudo o que eu merecia e que me foi negado. Hoje eu vejo, bem na minha frente, tudo o que eu merecia e que me foi negado.

Eu nunca vou aceitar.

Deste ponto em que meus pés estão parados em diante, eu sei como será o caminho. Sei que ainda existem punhados e punhados de possibilidades e às vezes me acalma pensar que posso ser surpreendida. Mas sei que o provável caminho é de dor. Sempre será difícil. Sempre, sempre, sempre será difícil. Meu coração não se acostumará à realidade imposta a ele. Em algum rápido ponto do tempo, em algum pequeno grão da ampulheta, eu cheguei a acreditar que seria possível me acostumar. Que tudo o que preencheu meu coração um dia, desapareceria, se perderia ao longo da linha do tempo. Mas é outra linha que me liga. Um fio. Vermelho.

O caminho será de dor e sei que existe a possibilidade de a dor se multiplicar ao longo do tempo, aparecer em outros rostos, me torturar de maneiras que nem consigo imaginar ainda. Até ser substituída pela dor da ausência permanente. Qualquer que seja a ordem, o caminho e os atalhos seguidos, o que sei é que nunca mais será fácil.

Nunca mais será um lugar de paz.






Cai(o)s

     12/07/2019




     Encontrou-se sentada em uma cadeira, em frente à janela. A cadeira ao lado foi ocupada pelo outro. A vista da janela era preenchida pela paisagem da praia deserta, o mar à frente.

     - Por que tirou os óculos?

     Ele fazia a pergunta. Ela não o olhava, estava com a atenção fixa nas ondas do mar.

     - Não aguentei enxergar a verdade tão nitidamente.

     Breve silêncio.

     - Sentiu dor?

     Ela concordou com a cabeça. Ainda com os olhos fixos na paisagem, perguntou:

     - Não há nada que eu possa fazer para mudar isso, há?

     Ele negou.

     - Enxergar com as suas vistas está além da capacidade deles. Não é culpa sua. Não é culpa deles. Apenas... nunca vai acontecer.

      A angústia no peito queria ser derramada, mas ela não conseguia mais chorar.

      - Eu sempre estive sozinha?

     - Sempre.

     Silêncio.

     -  E por que eu nunca percebi?

     - O amor que sentia por eles não permitia.

     Ela entendeu.

     - E agora esse amor está mudando...

     - ... e mudará cada vez mais.

     Nem as ondas do mar falavam. Não havia vento soprando, não havia sinal de outras pessoas, não havia nenhum ruído.

     Ela se virou para ele.

     - Você acha que um dia eu terei que vir para cá de verdade? Para... me livrar dos sentimentos?

     - Para cá? - Perguntou ele, olhando à sua volta. - Ou para cá? -  apontou para o mar profundo.

     Ela deu de ombros. Ele respondeu firmemente.

     - Qualquer uma das opções poderia te libertar. Mas você não teria coragem de seguir nenhum dos dois caminhos. E não estou dizendo que deveria encontrar coragem.

     - E o que eu deveria fazer?

     Ele voltou o olhar novamente para a paisagem além da janela. Dependendo do modo como olhava, o mar parecia um convite. Um convite doloroso e libertador. Não havia som algum. O sol não brilhava. Os pássaros não estavam ali há tempos. Apenas um longo trecho de areia escura, envelhecida, e o oceano implacável.

    - Nada. Não há mais nada a ser feito.