É muito difícil viver dentro da minha cabeça

02:01 Kamila Siqueira 0 Comments

02/06/2021


Uma vez minha mãe me disse que a Bíblia diz que esse mundo não é um lugar bom para se viver mesmo. Que Deus tem outro lugar pra gente, mas que é só pra depois, e que aquele negócio de os humilhados serem exaltados é só depois da morte.

Diferente da minha mãe, eu não sou grande seguidora da Bíblia ou de qualquer outro livro sagrado, mas eu tenho que concordar com essa parte, tá cada vez mais difícil ficar por aqui e eu me lembro desse diálogo com mais frequência do que costumava me lembrar antigamente. Hoje é uma daquelas noites difíceis, um pouco mais difíceis do que o normal. 

É muito difícil viver dentro da minha cabeça - e nesse mundo aqui de fora também. É muito difícil viver todos os dias com esse sentimento de urgência dentro do peito, com essa certeza de que tudo vai dar errado, com esse temor de que o pior está sempre por vir, está sempre me esperando virar a esquina, está sempre chegando e me tomando inteira pelo medo, me paralisando, me sugando, me consumindo.

Meu Deus, eu quero morrer, eu quero morrer, mas eu não quero morrer, tem tanta gente morrendo agora, eu não quero morrer, eu não posso morrer, não agora. Eu só quero que se abra um buraco no chão para eu entrar lá dentro e me esconder do mundo, me esconder das pessoas, me esconder das expectativas, das responsabilidades, da luta interna eterna. Será que eu posso morrer só um pouquinho, só por hoje? Talvez por amanhã também. Será que eu posso morrer só um pouquinho, por uma semana ou duas?

Eu não sei se isso vai passar de verdade, nem nessa vida, nem na outra. Eu não sei se é só fase, se foi só um tropeço, se tá tudo bem, se é assim mesmo, se já vai ficar tudo bem, vê? Eu não posso ter certeza disso porque minha cabeça não me deixa ter certeza de nada e é só por isso que eu tenho quase certeza de que nunca vai ficar mais fácil, porque ela sempre vai estar aqui, a minha cabeça. 

Será que quando a gente vai para o céu, a gente ganha outra cabeça?


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Olhar altivo

17:12 Kamila Siqueira 0 Comments

    05/05/2021



      Eu amo você.

     Acho que é importante dizer isso, antes de qualquer coisa. Meu amor por você não diminuiu. Não é sobre isso. 

     Mas eu já te admirei mais.


     Às vezes penso que os caminhos que tomamos são incompatíveis. Não sei o que nos levou a isso, se foram caminhos que seguimos sem perceber ou se tínhamos alguma consciência. Acho que estávamos distraídos demais com todo aquele amor e as gargalhadas das tardes de sábado. Mas lá no fundo, no fim do dia, quando a noite chegava e me deixava sozinha, a consciência tomava conta de mim. Eu sabia que o futuro seria assim. Eu temia que o futuro fosse assim.


     E ele chegou, o futuro, como a montanha russa que mora dentro do meu estômago disse que chegaria. E chegou em forma de palavras, que ficaram ecoando em minha cabeça durante a semana inteira. Todas as noites, quando me deito no silêncio, as palavras que você disse gritam em minha cabeça. E elas machucam. Elas me ferem. 


     Sei que você não tem a menor ideia desses machucados que estão dentro de mim, que eu não consigo expor. Suas palavras aparentemente não eram ofensivas. Você nunca disse nada para me ferir. Pelo contrário, você sempre me cuidou. Mas as suas palavras me mostraram que aquelas mudanças que eu sempre temi, aquelas que você sempre dizia que não faziam sentido, enfim aconteceram dentro de você. Tudo aquilo que eu tinha medo que você se tornasse, você está se tornando. Eu sinto que está. Eu temo que esteja.


     Não vou dizer que foi por influência de quem diz isso há anos, você não é mais uma criança. Você pode filtrar o que ouve. Você pode refletir, pode discordar. Mas foi uma escolha sua. Você escolheu estar do lado oposto de onde estou, de onde gosto de estar. Agora sinto que criamos um cabo de guerra e sei que não sou forte o bastante para te puxar para o lado de cá, não mais. Acho que um dia eu tive uma grande força, mas quanto mais tempo passo nesse mundo, mais sinto a força esvair-se e agora não sei se sou capaz de te convencer de coisa alguma. Mas eu queria ser, sabe? Eu queria ter força o bastante, queria que você reconhecesse minha força. Queria que reconhecesse o poder das minhas palavras, o poder das palavras dos que amam e dos que tentam ser justos. Queria que pudesse abrir seu coração para ouvir o que penso e o que sinto, sem aquele suspiro pesado e o revirar dos olhos. Queria que me ouvisse de verdade, de um jeito que você parou de ouvir há tempos.


     E eu não queria escrever sobre isso. Eu queria falar. Eu queria ter coragem o bastante para te dizer tudo o que estou sentindo, sem medo de que você entenda errado. Sem medo de que você tome atitudes que eu não quero tomar. Mas o medo agora é algo que vai me acompanhar para sempre, não é? Eu disse que isso aconteceria. Eu disse que esse caminho me traria medo para sempre.


     Mas não se preocupe, o fato de você ter escolhido um lado oposto ao meu não me faz te amar menos. Suas palavras corrosivas não destruíram o meu amor por você.


     Elas destruíram o seu amor por mim?



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