Pra garantir

29/04/2017



Ontem eu pensei sobre a morte.

Quando todos já estavam dormindo, quando você já tinha me desejado o boa noite diário, quando eu já estava protegida embaixo das cobertas, dentro do silêncio do escuro, eu pensei sobre a morte.
Não como uma forma de solução ou resposta para as minhas angústias, mas como o inevitável destino que ela é. Ontem eu li uma reportagem sobre um acidente de trânsito em que duas pessoas morreram. Semana passada, enquanto eu viaja de ônibus, o trânsito da rodovia foi parado porque um homem morreu atropelado enquanto trabalhava em uma obra. A gente vai morrer. E a gente não sabe quando.

As primeiras coisas que me vêm à mente quando esse pensamento me sacode são as pessoas que eu deixaria para trás. Mas sei, ou ao menos espero, que eventualmente elas ficariam bem. A outra coisa que me vem à mente é o que gostaria de ter feito e não fiz: terminar o livro. Eu sei, eu deveria, não tem desculpa pra isso. Ontem, porém, outra coisa inundou meus pensamentos e foi isso que me manteve acordada até os olhos arderem.

Eu nunca disse que eu te amo.

Existe um milhão de razões estúpidas para isso, nenhuma delas é por não te amar. Eu te amo todos os dias. Quando você me dá bom dia às duas da tarde, quando você monta uma playlist com músicas que eu provavelmente vou gostar, quando você me faz rir de uma besteira idiota até doer a barriga, quando você pergunta como foi meu dia e quando manda eu beber bastante água e comer bem. Eu te amo quando você diz que odeia a hora de dar tchau e quando cozinha algo gostoso para mim. Quando me pede um cafuné depois de um dia cansativo e quando me compra um doce para me alegrar em uma semana difícil. Eu te amo quando você diz que sou capaz de fazer tudo aquilo que não me acho capaz. Quando acredita em mim mais do que eu mesma. Quando compreende todos os meus dramas e me acalma sem demora. Eu sei que eu não te digo isso, mas às vezes é difícil até não dizer.
Mordo minha língua como se fosse um segredo. Não faz o menor sentido, eu sei, mas é o medo de tudo desabar quando ainda estamos em meio à construção. É o medo do tempo, esse bichinho que tanto odeio. É medo.

Mas ontem foi aquele outro medo que me invadiu, aquele medo que pede urgência, o medo de morrer antes de conseguir dizer tudo isso. "Que besteira é essa, você não está morrendo", diz a minha razão. Mas ela não tem razão, não dessa vez, porque como é que a gente sabe quando será nossa última vez? Nosso último dia? Nossa última saída de casa? A gente não sabe, não tem como saber.

Por isso, eu vim aqui escrever. Quando for a hora, hoje à noite ou daqui sessenta anos, quando for minha hora, pelo menos já deixei eternizado. Pelo menos você poderá saber, meu bem. O mais importante. Agora, você já sabe.


Desalinho

25/02/2017





   Eu tô no meio da bagunça do meu quarto, de livros, papéis, chocolates, bolsas e um batom vermelho, descobrindo que preciso abrir espaço pra ti.
   Eu ando tendo medo de novo. De coisas que já me eram passado antes de você se fazer presente, de coisas que eu já havia me esquecido, de coisas que eu não sabia que ainda estavam aqui, enterradas sob essa bagunça. Eu ando me escondendo. Sem querer, debaixo da neblina dos dias frios, debaixo da rotina do dia a dia, debaixo das risadas que dou. Eu ando me cobrindo de coisas concretas para não encarar as incertezas dos espaços vazios. Eu ando construindo um muro.
   Muros não são bons. Não me parece tão fácil abrir espaço para que os blocos de concreto sejam substituídos pela intimidade, mas me parece extremamente necessário. Eu não quero que se vá. E eu sei que quem caminha e dá de cara com um muro de concreto, em algum momento se vai. Teu espaço tá aqui, eu sei que está. Eu juro que está. Eu só joguei um monte da minha bagunça por cima porque me sinto segura com toda essa tralha, meus textos, minhas músicas, minhas manias, meus pensamentos, minhas coisas, minha vida. Só que eu não quero ser só minha para sempre. E é tão difícil saber até que ponto devo abrir espaço e deixar-te tomar conta de um canto, até que ponto é seguro e se realmente deve haver um ponto. Eu tô meio perdida nessa desordem, confesso. Eu tô meio dispersa da superfície, me escondendo bem lá dentro de mim mesma. Mas eu juro - eu juro - que vou organizar todo esse auê dentro do peito, que vou colocar a corda bamba de lado e que vou gerar o espaço para que tudo germine de fato. Eu prometo.



Grão de água

   30/12/2016



   Admito que é estranho dar estes passos.
   Logo eu, que sempre tive tantos receios em dar passos para frente sozinha, agora anseio por criar meu próprio caminho. Você consegue imaginar isso? Eu, que sempre sofri por antecipação e afoguei-me tantas vezes em minha ansiedade, agora desejo o desconhecido.
   Eu não sei de onde isso surgiu. É como se um interruptor se ligasse dentro de mim dizendo que está na hora. A minha hora. Aqui e agora.
   É a minha hora de ser cem por cento quem eu sou, de usar toda a minha capacidade para ir mais longe. Para chegar mais alto. De parar de me esconder, de me autossabotar, de me censurar. De parar de pedir desculpas por querer mais, de parar de me diminuir diante de outras pessoas, de parar de achar que eu não posso. Porque eu sou maior do que aparento. Sou mais forte, mais capaz e melhor. Porque não sou mais apenas uma gotinha d'água em um oceano imenso. Sei que ainda não sou tudo o que gostaria, mas estou me tornando algo mais concreto que isso. Mais firme. Como um grão bastante sólido. E sei que tenho toda a capacidade para ser o que quiser e chegar onde eu quiser. Eu só preciso enfrentar.
   Sempre senti que deveria carregar muitas coisas comigo se quisesse ser feliz. Que tinha a necessidade de ter pessoas e coisas comigo. Que precisava delas. Que não saberia viver se as perdesse por algum motivo. E então... Eu não sei muito bem como foi. Talvez as sessões de terapia tenham realmente funcionado ou talvez a maturidade tenha vindo com o tempo ou... sei lá. De repente aquela necessidade já não fazia mais parte de mim. De repente, naquela noite, a ficha caiu. Eu não preciso carregar nada comigo. É claro que ainda amo todos os que sempre amei e ainda quero todas as companhias que amo, mas há uma diferença tão gigantesca entre querer e precisar. Aquela necessidade quase física, aquela dependência que me trazia tantas angústias, que muitas vezes me impediu de fazer o que era melhor para mim por medo da perda, aquela coisa invisível que me segurou durante tanto tempo e me fez desistir de tantas coisas que tive vontade... tudo isso já não faz parte de mim. Carrego na bagagem apenas a minha confiança e os meus talentos. Sei que posso ir longe com isso. Sei que posso ser muito maior do que sou.
   Só preciso, finalmente, ser protagonista da minha própria vida.

Abalo sísmico

  17/12/2016



  Suspiro.
  - Mas é que nós humanos temos um milhão de placas tectônicas dentro da gente e placas tectônicas não permanecem imóveis! - Pausa. Outro suspiro. - Quando eu digo que tô bem é porque estou mesmo. Eu tô legal. Mas, você sabe, as placas se movem milimetricamente a todo instante. Elas estão sempre se encostando ou se afastando, raspando uma na outra, desgastando-se e separando-se. E você sabe o que acontece quando placas tectônicas se movem, não sabe?
  Cinco segundos de silêncio.
  - Terremotos.
  Três segundos de silêncio.
  - Isso. Terremotos.
  Um silêncio mais longo do que aqueles que acontecem após desastres naturais.
  - Quando uma placa milimetricamente se move em minha vida, tudo desaba. Tudo. Eu não consigo segurar as minhas estruturas, não sei como sustentá-las. Não sei como me sustentar. Quando você me pergunta se estou bem e eu digo que sim, juro que estou dizendo a verdade. Mas no fundo eu também sei que a qualquer momento alguma coisa vai se mover, milimetricamente, e que tudo pode desabar em cima de mim. E eu não sei se já aprendi a lidar com essa insegurança.
  Os dedos que seguram a caneta tamborilam por três vezes, fazendo com que a ponta dela manche o papel.
  - O problema aqui é que você luta para continuar sentindo essa insegurança e não para superá-la.
  Cenho franzido.
  - Por que eu faria isso?
  O dar de ombros.
  - Porque é mais fácil. É mais seguro. Enfrentar todos esses medos e ter a certeza de que você vai ficar bem quando tudo desabar significa ter mais controle sobre a própria vida. E isso é assustador. Você já sabe como é estar no chão diante de todo o castelo de cartas desmanchado, já conhece exatamente o gosto da dor, sabe que do chão você não passa. Para você, é seguro cair. Você sabe como a queda é. Por outro lado, você não sabe como é encarar as adversidades dentro dos olhos e empinar seu nariz. Não sabe como é impor seus pensamentos e sentimentos quando alguém tenta passar por cima deles. Não sabe como é bater o pé com segurança e fazer o que é melhor para você. E não saber disso tudo traz um medo gigantesco, porque todos nós temos medo do desconhecido. Então você prefere permanecer frágil, prefere cair a todo instante, porque ao menos as consequências da queda você já conhece. - Pequena pausa. - Você sabe o que os países que sofrem com constantes terremotos fazem?
  - O quê?
  - Eles constroem edifícios mais seguros. Mais fortes. - Longa pausa- Você se lembra da história dos três porquinhos?
  - Claro que sim.
  - Você tem uma casa com quintal. E nesse quintal, você possui todo o material de construção que poderia ter. Você tem tijolos. Tem cimento. Tem areia, pedrinhas, tudo o que precisa. Mas você continua vivendo em uma casa de palha porque acha que assim é mais seguro. Porque acha que assim as coisas não vão mudar e que você vai conseguir manter todos perto de você e que se a casa cair, tudo bem, você já está acostumada com as quedas. Mas as quedas machucam. E você não precisa delas, você pode morar em uma casa de tijolos, você tem tudo em suas mãos para morar em uma casa de tijolos. Para não sofrer mais com as quedas.
  Longo, longo silêncio.
  - Construa sua casa, moça. Tome as rédeas da sua vida e não tenha medo das consequências disso. Não tenha medo das mudanças. A vida é sua, você pode fazer isso. Está tudo bem em construir sua própria casa. Está tudo bem. 


O guarda-chuva de mentira

22/09/2016 




  É difícil acreditar. Quando digo a algumas pessoas, nem todas acreditam. Mas, eu juro, entre todas as suas mentiras e histórias mirabolantes, existiram algumas verdades incontestáveis.
 
  É verdade, por exemplo, aquilo que você disse em nosso primeiro encontro sobre eu ser muito mais bonita pessoalmente do que pelas fotos do instagram. Eu nunca precisei de filtros para ser bonita mesmo. E todas aquelas palavras de admiração que você disse naquela noite, tropeçando nas palavras, entre gaguejos e nervosismo, foram verdades. Foi verdade também o que falou naquela outra noite, quando deitamos na grama e observamos morcegos passeando pelo céu. Você se lembra de dizer que eu era uma companhia tão gostosa que dava vontade de me levar para um lugar distante, com chocolate quente e um cobertor, só para observar as estrelas? Era conversa de conquistador barato, mas eu sou mesmo uma companhia esplêndida, meu bem. Quando me disse que nem acreditava direito que eu estava te dando uma chance, eu ri sem pensar no quanto você estava certo. Você foi um cara de sorte mesmo.
  
  Quando te contei todas as histórias por trás da minha tatuagem e você disse que sou forte, você estava falando a verdade. Sou uma mulher forte pra caramba. E todas as vezes em que me disse que meus olhos eram diferentes, que era legal observar o tom incerto entre o castanho e o esverdeado, você estava certo. Meus olhos são fascinantes. E meu corpo, que seu corpo desejava de um jeito tão lascivo, também é perfeito. "Um poço de luxúria", como você dizia. Sabe aquele batom escuro que comprei e você disse que fiquei muito sexy com ele? Tenho usado-o muito ultimamente. E fico sexy mesmo.
  
  A inteligência que você admirava, ela cresce a cada dia dentro de mim. Lembra como sempre dizia que minha independência era admirável? Por eu ter dois empregos, por nunca querer depender de ninguém, por correr atrás de tudo o que preciso. A minha maturidade para relacionamentos que você achava incomum, meu respeito pelo espaço individual, minha busca por ter meu próprio espaço e saber equilibrar isso com uma relação saudável, a cada dia eu desenvolvo tudo isso mais um pouco. E sou cada vez mais inteira, mais completa. Por mim mesma.
  
  O meu talento com as palavras, meu talento com o trabalho, coisas que você reconhecia no dia a dia. Te ajudei a melhorar um pouquinho seu português. Te ensinaria também aquelas outras coisas que queria melhorar um pouco, caso tivéssemos mais tempo. Não foi o caso.
  
  Lembra daquele dia em que me disse o quanto eu era maravilhosa por ter montado seu currículo, te apoiado na busca por um emprego e ainda me oferecido para ajudar a organizar sua vida financeira no futuro? Você estava certo, eu sou maravilhosa mesmo. E sempre que me agradecia pela dedicação e pelo carinho, meu bem, você tinha toda a razão. Tinha muito pelo que agradecer.
  
  Lembra daquela vez em que sumiu durante um dia inteiro e me procurou à noite, angustiado com algo que havia acontecido? Obviamente, eu nunca soube o que de fato aconteceu, mas nunca vou me esquecer do teu suspiro aliviado ao dizer "Nossa, falar com você é meu melhor remédio". Eu podia te trazer paz, meu amor. Estava sempre disposta a carregar teu coração com minhas próprias mãos para que ele não doesse dentro do teu peito. Meu colo podia ser seu sempre que quisesse. Eu sei dar paz. Sei dar amor. Eu sei proporcionar um milhão de coisas que você não me deixou demonstrar. Eu tenho um amor gigantesco dentro de mim, que estava prontinho para te envolver e te afagar. Eu era sua, meu bem. Eu era toda sua.
  
  Não sei se você tem a consciência de que todas essas coisas que me disse eram verdades. Não sei se enxergou isso um dia. Não sei se viu todas as constelações de estrelas brilhantes dentro de mim, se sabe como sou uma pessoa incrível. Mas cheguei à conclusão que pouco importa o que você sabe. O mais importante, meu amor, é que EU sei de tudo o que sou.
  



Submersão

23/08/2016


Quando eu era criança, não podia entrar em piscinas fundas se não estivesse usando uma bóia em cada braço. Nunca aprendi a nadar. Na primeira vez em que vi o mar, apenas meus pés o conheceram de perto e suas águas só puderam subir até minhas canelas. Mais tarde, aprendi a mergulhar em um oceano diferente. Um mar interno. Metafórico.

Meu coração nunca foi raso. E, embora eu cultivasse um certo medo das ondas traiçoeiras do oceano real, eu nunca temi mergulhar em mim mesma. Eu construí um castelo submerso nessa alma líquida, construí uma cidade inteira, minha própria Atlântida. Mas, até hoje, sinto que não conheci todos os pedacinhos dessa imensidão profunda. 

O problema é que de vez em quando, desses pedacinhos escuros e desconhecidos, surgem sereias. E elas cantam para mim. E o canto me embala, me eleva, me envolve e me puxa para mar adentro, para o fundo, para os cantos escuros e misteriosos. E a sensação é tão deliciosa, meu coração se aquece, sinto o calor de outra pele em minha pele e não quero nunca mais voltar à superfície. E é aí que eu me afogo.

Esqueço-me das recomendações para não entrar em águas profundas, esqueço-me de que não sei nadar e me afogo. Me afundo. Me engasgo com a água salgada, que queima minhas narinas, minha garganta, meus pulmões, que lutam para respirar. A água salgada que engulo se torna amarga, inunda meu corpo e envenena minha alma. Eu morro. A casca continua viva e sou obrigada a arrastá-la por todo o canto, enquanto tento ressuscitar o coração. Um, dois, três. Um, dois, três. Até que, mais cedo ou mais tarde, ele volta a bater.

Tantas vezes isso me aconteceu, tantas vezes me deixei levar pelo canto doce e fui engolida pelas ondas traiçoeiras do oceano. Até que prometi a mim mesma manter distância da água. Mantive os pés firmes no chão o quanto pude, mas aí... aí... Bom, aí você me apareceu. E me chamou pra nadar com você. E eu fui, de colete salva-vidas, achando que assim estaria livre de qualquer mal. Brinquei na água contigo. Tentei permanecer onde meus pés alcançavam a areia. Mas de repente, me deu uma vontade louca e irresponsável de mergulhar contigo e eu não podia mergulhar de colete salva-vidas. Livrei-me do colete. Livrei-me das amarras. Livrei-me dos medos, das inseguranças, dos traumas, das recomendações alheias. Livrei-me até da própria roupa. E a cada dia eu mergulho mais fundo e tenho a sensação estranha de que consigo respirar embaixo d'água. De que não vou me afogar. De que está tudo bem.

Às vezes piso em falso, em algum buraco escondido pela areia submersa. Nesses momentos, algo atinge minha consciência e me faz lembrar o quanto estou me arriscando. E me faz querer te pedir. Te implorar. Por favor, não seja mais uma sereia que canta para me afundar. Por favor, não roube todo o oxigênio que tenho até me assistir morrer. Por favor, por favor, por favor, não me faça morrer de novo. Por favor.



Abóbada Celeste

    06/06/2016




    O problema não é o filme que a gente viu no cinema e você se esqueceu, nem aquelas outras coisas que sua memória seletiva apagou e que eu gostaria que se lembrasse. Dessas coisas a gente até ri. O problema é que você não admira as estrelas do céu.

    Quando a noite era escura e tudo ao nosso redor fazia silêncio, eu tinha o gosto da sua boca em minha saliva e suas mãos já moravam em minha pele. O teu sorriso sempre hipnotiza meus olhos, você sabe. Mas desta vez, por um instante de segundos, meu olhar escapou do seu feitiço e perdeu-se. Aterrissou no céu.

    Um milhão de estrelas me olharam de volta e eu quase perdi o fôlego ao perceber que ali era tão escuro que eu conseguia ver estrelas onde nunca havia visto antes. Só que você não as viu. Você estava perdido na curva do meu pescoço, entretido com meu perfume. E eu quis te dizer: "Ei, olha isso! Olha quantas constelações a gente consegue ver daqui, olha como esse céu sorri pra gente, olha!" Eu quis te apontar a constelação de Escorpião, quis te contar porquê ela só aparece no céu durante os equinócios, quis te falar toda aquela mitologia de Órion que eu não sei se você conhece. Mas eu não o fiz. Eu não te contei nada e não te apontei estrela nenhuma. Eu engoli toda aquela poesia que meus olhos encontraram e me voltei de novo a você. Porque eu sei que você conseguiria ver as constelações, sei que conseguiria enxergar as estrelas, mas jamais as veria como eu vejo. Eu sei que você enxerga o mundo inteiro, mas não vê a delicadeza dele que eu vejo. A minha maior vontade naquele momento era de me deitar nos teus braços e olhar para o céu. E só. Mas eu sei que a sua vontade não tinha nada a ver com o que estava acima de nós, eu sei que seus olhos queriam se perder em mim, e não no céu. E isso normalmente não seria um problema, seria até bonito. Mas é que você não enxerga as estrelas em mim.

    Eu tenho um milhão de pequenos vaga-lumes que moram dentro de mim e fazem minha alma brilhar. Eu tenho um milhão de coisas boas dentro de mim. Eu tenho um milhão de virtudes, um milhão de histórias curiosas, um milhão de conversas interessantes, um milhão de amor. Mas você não enxerga nada disso. Eu ainda consigo ouvir sua voz me chamando de mil elogios. Ainda consigo sentir seus lábios macios vindo de encontro aos meus e sua barba namorando minha pele. Mas tudo o que seus lábios, sua barba, seus olhos e o seu sorriso querem é mergulhar profundamente em meu corpo. E nada mais.

    E isso, sim, é um problema.

 

Digressão

30/04/2016




    Eu nunca tive medo do escuro porque sabia que nele poderia me esconder. Em outros tempos, ele foi bastante útil para esconder as feridas abertas que eu não gostaria de mostrar e as conversas que eu não gostaria de ter. Se eu não vejo nada, então nada me vê.
    Hoje já não me escondo mais, mas ainda me sinto mais segura sem as luzes. É no silêncio do escuro que as palavras vêm me visitar. Às duas da manhã, a gente acha que todo mundo está dormindo. Mas se nós não estamos, é bastante possível que outros também não estejam, certo? Todas as luzes no prédio da frente estão apagadas. Eu me pergunto quantos olhos estão abertos neste momento e quantos corações estão acesos como o meu. Quantos estão buscando preencher este buraco que a gente só sente às duas da manhã? Quantos estão sentindo o desespero da percepção de que a vida não tem um caminho certo? No escuro, a gente sente tudo com mais intensidade. As pessoas choram no escuro. Sentem medo. Fazem amor. As pessoas sonham no escuro, de olhos abertos, observando o teto de seus quartos. No escuro, as nossas almas se libertam. Temos as ideias mais geniais, os sonhos mais profundos, os planos mais ousados. Somos mais sinceros no escuro. Admitimos nossos desejos e conversamos sobre nossas dores. Na última vez em que eu disse eu te amo, estava envolta pela escuridão. Na última vez em que rezei aos céus, minha companhia era o silêncio da madrugada. Na última vez em que ousei sonhar, eu não enxergava nada além da minha própria esperança. E aquela foi a última vez.
    Para onde vão os nossos sonhos quando acendemos as luzes e apagamos os nossos corações?





A patrulha da fraude

     


30/03/2016
      Toc Toc.
     Eu encaro a porta com o cenho franzido e abro. Dois homens me encaram, um loiro, um moreno. Usam ternos. Perguntam se sou a fulana de tal e eu afirmo com a cabeça. Os dois entram sem convite. Quando passam por mim, consigo ler rapidamente um crachá: Patrulha da fraude.
     Sentam-se. Sento-me. O moreno abre uma pasta cheia de papéis e começa.
     - Nós sabemos de tudo. Estamos te observando desde o início então não tente nos enganar também. Você é uma impostora. Nós temos provas de que você não faz a menor ideia do que está fazendo com a sua vida e tudo o que conseguiu até hoje não vale nada porque você é uma farsa.
     Meu coração acelera. Fui descoberta.
     - Eu não sei do que estão falando.
     O loiro também fala.
     - Exatamente. Você não sabe de nada. - Ele estala os dedos - Vamos por partes. Você pretende arrumar um emprego de verdade um dia ou vai continuar fingindo que é uma profissional com esses empreguinhos que arranja desde que saiu da faculdade?
     - Eu... eu tenho um emprego - a afirmação soa quase como uma pergunta.
     - Em nossos arquivos consta que você nunca declarou imposto de renda.
     - Porque nunca recebi a quantia anual que me obrigaria a declarar.
     O moreno tira os óculos e massageia as têmporas.
     - Você acha que isso é salário de um adulto?
     Eu dou de ombros.
     - É a média que recebi em todos os empregos que já tive.
     - O que seu pai acha disso?
     Eu não respondo. O loiro respira fundo.
     - Nós sabemos também sobre seus sonhos profissionais - ele ri - se é que podemos chamar isso de profissão. Você realmente acha que um dia será uma escritora de verdade?
     - Eu sou uma escritora de verdade - afirmo.
     O moreno também ri.
     - Quantos livros você já publicou?
     Eu me encolho.
     - Eu nunca disse que era uma autora publicada...
     Eles anotam algo nos papéis, um ri e o outro debocha:
     - Desde os 17 anos com essa história e ainda não cresceu...
    - Ok, vamos mudar de assunto. - Suspiro aliviada. - Sua vida amorosa. Você está ciente de que suas amigas estão começando a se casar enquanto você não tem nem namorado?
     Eu rolo os olhos.
     - Eu estou bem com isso, obrigada.
     - Você tem ideia da quantidade de pessoas que estudaram com você no colégio e já tiveram filhos? E eles estão ótimos. Filhos dão um novo sentido à vida, fazem você se tornar um adulto de verdade, criar responsabilidades. Coisas que você não tem.
     Encolho-me de novo. Eles analisam documentos e fotos na pasta.
     - Nós sabemos que você sai com alguns caras de vez em quando. Até diz para os amigos que às vezes gostaria de namorar alguém. Mas somente nós sabemos que na verdade você possui a maturidade emocional de uma adolescente e não sabe construir relacionamentos adultos. Você não sabe fazê-los durar.
     O outro consulta alguns papéis.
     - Até quando você pretende usar os traumas dos dois ex-namorados agressores para legitimar sua solteirice?
     Trinco os dentes.
     - Eu não tenho trauma nenhum e não uso desculpa nenhuma.
     - Será que não? Nem para si mesma?
     Fecho os punhos.
     - Ok, ok, não queremos deixá-la desconfortável. Não há nada de errado em viver sozinha. Ser independente. Diga-nos, por que você ainda não mora sozinha mesmo?
     Fecho a cara.
     - Não ganho o suficiente para me sustentar.
     Eles sorriem.
     - Ah, claro. O emprego de novo. Você sabe que já está saindo da fase dos "vinte e poucos anos" e entrando nos "vinte e tantos", não é? Não acha que já está na hora de conseguir se sustentar como uma adulta?
     Não respondo. O moreno me encara, olho no olho, e eu sustento o olhar.
     - Você só finge ser adulta. Mas na verdade não consegue ser. Você é uma farsa. Tem idade mais do que o suficiente para ser uma pessoa de verdade, mas não consegue. Você é incapaz. Olha à sua volta, todos os seus amigos do facebook já moram sozinhos, dirigem seus carros, têm bons empregos, ganham bem, viajam, aproveitam a vida, namoram, casam-se. Olha pra você. O que você conseguiu até hoje? Como você tem coragem de andar por aí fingindo que é alguém de verdade? Você não é nada.
     Ele termina de falar e continuamos nos encarando, ambos com as mandíbulas apertadas. Minha respiração é pesada. O loiro intervém, entregando-me alguns papéis e uma caneta.
     - Acredito que isso é o bastante por hoje. Por favor, assine nos locais indicados e iremos embora.
     Dou uma lida rápida nos papéis sem entender muitas coisas, mas assino rápido para me livrar logo dos dois.
     - Essa é a sua assinatura? - Eles perguntam, rindo do meu nome escrito por extenso. - Parece piada.
     Encaminham-se para a porta. Antes de desaparecerem, o moreno torna a olhar-me com firmeza e diz:
     - Pode ter certeza que isso não vai ficar em segredo. Vamos contar para todo mundo sobre seus fingimentos. Você está perdida, garota.
     Eles vão embora e eu permaneço parada na porta. Por uma, duas, três horas. Não consigo me encarar no espelho. Eu estou perdida.
    Eu estou perdida.




Caixas ineptas

01/03/2016




Eu enxergo as pessoas como seres que carregam caixas. É como se cada um de nós, ao nascer, ganhasse uma caixinha simples, vazia por dentro. Sete bilhões de caixinhas iguaizinhas. Ela não é um fardo porque nós não temos obrigação nenhuma quanto à caixa, não há nada que supostamente devemos fazer com ela. Entretanto, eis a beleza da coisa: não temos obrigações, mas possuímos a liberdade de fazer o que quisermos com ela.

Algumas pessoas enfeitam a caixa. Deixam-na o mais bonita que conseguem e sentem-se felizes ao admirá-la. Isso é bonito. Outros preferem não alterar sua aparência física e gostam da caixa em seu estado natural. Isso também é bonito.

A diferença existe quando abre-se a caixa.

A gente pode colocar o que quiser lá dentro. Coisas boas, coisas ruins, coisas que nos fazem rir, coisas que despertam sentimentos bons em quem abrir a caixa, coisas que ajudam outras pessoas. Coisas que destroem, coisas que apodrecem, coisas que inspiram, coisas que afagam. A caixa não tem fundo. Imagino até mesmo que quanto mais se adiciona à ela, mais espaço se cria para novos conteúdos. A caixa é mágica e ao mesmo tempo, completamente comum.

Por onde ando, procuro por caixas a serem abertas. Respeito quando não há aberturas, algumas pessoas preferem manter seus cadeados fechados por questões de (in)segurança. A gente precisa compreendê-las e respeitá-las. Outras, passam o dia a adornar sua caixa, polindo-a até que ofusque tudo ao seu redor e a carregam consigo por onde andam. Mostram-na com orgulho porque é um objeto bonito. Mas, ao abrir-se, a caixa não tem nada além de quatro pequenas paredes vazias. Brancas. Insípidas. Essas caixinhas me entristecem. Veja bem, todos nós temos a liberdade de colocar o que quisermos dentro da caixa. Por que tantas caixas ainda estão vazias?

De vez em quando, encontro uma cheia. Ainda mais raramente, uma que transborda. Caixas que transbordam me fascinam. E isso me faz pensar em minha própria. Eu já destranquei meus cadeados, mas penso que ainda há muito pouco aqui para ser uma caixa admirável. Tenho algumas frases escritas, uma montanha de palavras lidas, mãos que ofereço de graça e céus que não me esqueço de admirar. Às vezes ainda tenho um pouquinho de vergonha dela e sei que preciso melhorá-la. Por dentro. Ainda há tanto espaço a ser preenchido! Conto com a paciência e compreensão de quem abre a caixa: ela está em constante reforma interior e juro que ainda irá evoluir muito. O importante é não deixar que ela se torne um deserto estéril, uma caverna oca.

Tente não andar por aí como uma caixa oca.