É que eu sinto muito


12/09/2020




     3:40 da manhã e eu penso que esse deve ser um recorde da insônia.

     Insônia: 

    substantivo feminino

     Falta de sono.

     Talvez eu não devesse chamar de insônia, afinal. O sono existe, ele está lá. Ele está aqui. Ele está na ardência dos olhos durante todo o dia, na dor de cabeça, na resposta para aquela pergunta que de tempos em tempos ele me faz: e esses olhos vermelhos?

     Mas eu deixei de dormir há algum tempo, há alguns meses. Quando voltei a sonhar. Eu deixei de dormir porque os sonhos fervilham em minha cabeça e eu não consigo parar, eu não consigo descansar, eu não consigo deixar de ouvir aquelas vozes que sussurram ilusões. E eu as respondo. Eu respondo que sei que elas estão mentindo, mas que estão mentindo tão docemente que eu quase acredito. Eu quase acredito em todos aqueles sinais do universo. Eu quase acredito que aquele lugar onde eu sempre quis chegar possui um caminho de tijolos amarelos. 

     Mas por fim, eu não me deixo acreditar, é claro. Eu não posso. Preciso matar os sonhos antes que eles me matem por completo, antes que eles tirem meus pés do chão e me façam cair. Porque a queda dessa vez seria insustentável, entende? Eu não sei se você entende realmente. Como eu poderia me explicar?

     É que eu sinto muito.

     Eu sinto tanto, a todo momento, sobre todas essas coisas do futuro, sobre todas aquelas do passado e sobre esse presente pausado, inexistente, insuportável. Eu não sei por quanto tempo mais vou conseguir viver nesse presente inabitável. Eu olho o calendário todos os dias e conto os meses nos dedos da mão, conto os meses que faltam e os meses que já se passaram desde que começamos a viver os dias em que ninguém viveu. Eu conto e faço planos para o futuro. Mil planos de tudo o que vou fazer quando eu voltar, mil planos de tudo o que vai acontecer, mil planos que eu com certeza alcançaria, se ao menos eu... Se eu... Se eu não fosse quem sou.

     Eu tentei me explicar para vocês. Mas minhas palavras são sempre batidas no liquidificador e dependendo da velocidade da mistura, não é possível mesmo distingui-las no final. Eu não os culpo por não me entenderem. É que são tantas as coisas que sinto que nem sei como colocá-las para fora de forma que elas não se embaralhem. Eu sinto muitas coisas que não digo e digo tantas coisas que não escutam.

     Todos os sonhos se transformam em pesadelos ao fim da noite. É assim que tem que ser. É assim que preciso encarar, para que eu nunca me esqueça da realidade da alma humana. Para que eu nunca me esqueça de que não há mão para segurar (e não pelas mãos serem ruins, mas por esse não ser o papel delas). Para que eu nunca me esqueça de que no fim, sempre seremos apenas um e que por isso não devo tentar voar alto. 

     Ninguém vai me segurar para que eu não caia no chão.


Cigarra

09/06/2020


Esse texto não é para que você leia, meu amigo. Não é para que você ouça.

Esse texto é para que eu fale. É só para que eu fale.

Há quantos anos nos conhecemos? Você se lembra do dia em que nos conhecemos? Já faz tempo, mas eu me lembro que gostei de você desde o primeiro momento. Talvez porque eu sempre gosto das pessoas no primeiro momento (e me esforço para que não seja apenas no primeiro momento). Eu gosto de pessoas, não é? Eu costumava sempre gostar das pessoas.

Eu acho que você também gostou de mim já naquele dia. Quero dizer, você gosta de mim, não gosta? Eu costumava acreditar que você gostava.

Eu me pergunto se nós já éramos assim naquela época ou se fomos nos formando e transformando ao longo do tempo. Eu não me lembro de ter esse sentimento agridoce naquele tempo. Talvez ele tenha surgido conforme eu mergulhava nessas águas profundas e movediças que existem dentro de mim, das quais já não consigo mais sair. Sei que não sou uma boa companhia na maior parte do tempo. Sei que escolho todas as palavras erradas. Sei que causo ferimentos aos montes ao meu redor. Mas eu não sei como não ferir.

Te dediquei palavras sangrentas porque me senti ferida por você, o que não é uma justificativa plausível, eu sei. A gente podia ser tão parecido. Gostamos de muitas coisas em comum, sentimos tudo à flor da pele, entramos os dois naquela jornada de autoconhecimento e enfrentamento de traumas, ao mesmo tempo. Nós dois escrevemos. Escrevemos sobre nossos machucados mais profundos, sobre nossos passados, sobre o mundo e sobre o futuro. Nós dois sangramos por coisas parecidas em várias ocasiões. Por que a gente é tão diferente então?

Talvez tenha sido pelas coisas que você viveu enquanto crescia e pelas coisas que eu vivi enquanto envelhecia. Pelas coisas distorcidas que nós dois aprendemos com quem não sabia ensinar. Eu tento não te culpar pelas suas decisões erradas e tento não me culpar pelos meus atos impensados, mas às vezes não consigo. Tenho uma incrível dificuldade em aceitar nossas diferenças e, sobretudo, suas indiferenças. Quando você não se importa. Quando você rola os olhos. Quando você se ofende por eu dizer que você não se importa. Quando você olha para dentro tão profundamente que parece não conseguir olhar para fora nunca mais em sua vida. E eu, que vivo no outro extremo, que me machuco por não conseguir olhar para dentro de mim mesma, não consigo acompanhar sua lógica e seu ritmo. Somos extremos de uma mesma sinfonia. Eu, autodestrutiva. Você, autocentrado.

No dia do seu aniversário, quis te comprar um presente. Fiz uma lista de possibilidades e nenhuma delas se encaixava no meu atual emaranhado de problemas financeiros. Pensei em comprar mesmo assim. E aí lembrei daqueles momentos das sessões de terapia sobre o autosacrifício supérfluo. Dei dois passos para trás e desisti das compras. Senti culpa. Senti culpa por dois dias seguidos. Senti culpa como em tantas outras vezes, como quando você me presenteou em outras ocasiões. Você não iria sentir culpa, iria? Você não iria sentir culpa.

Eu escrevo para que eu não fale demais, mais do que já falei. Para que a gente não se machuque mais. Eu escrevo porque não saberia dizer o que sinto com as palavras certas, porque não saberia dizer que toda a minha revolta e toda a minha tristeza diante da sua neutralidade também é... Amor. Será que você entenderia? Será que entenderia que tudo isso é porque sinto amor, acima de todas as coisas?

Eu não acho que eu saberia dizer.

Eu não acho que você saberia entender.

 


A ressaca do mar

   28/04/2020



     Hoje a tristeza foi tão grande que não consegui me desgrudar da minha própria pele para escrever outras histórias.

     A tela em branco me cobra, vazia. Mas me permiti dedicar o dia de hoje apenas ao espaço cheio aqui de dentro. Hoje o vazio foi tão grande que não houve espaço para mais nada.

     Curioso como uma pequena fagulha pode ocasionar um incêndio gigantesco. A faísca me fez enxergar de novo, me fez rever onde eu estava antes dessa pausa, dessa grande pausa. E o lugar onde eu estava era doloroso e hoje eu me lembrei por quê.

     Eu estava indo embora.

     Talvez eu estivesse indo até tarde demais. Já faz tanto tempo que não sinto que pertenço a esses lugares, a esses papéis, a essa vivência. Mas me agarrei com todas as forças porque sabia que se eu fosse embora dali, teria que ir embora de todas as coisas também. Eu estava indo embora, mas sem querer ir de verdade. Eu estava escapando, escorregando, caindo sem querer.

     Mas aí veio a pausa. E com a pausa, era impossível perceber que eu estava indo embora, porque ninguém podia mais ir a lugar nenhum mesmo. Até eu me esqueci de que estava indo. Fiquei. Fiquei por um tempo, fiquei como ficava antigamente, fiquei tranquilamente distraída, achei que fiquei inteira. Mas hoje a fagulha se acendeu e eu percebi de novo que estava partida ao meio, percebi como eu tinha escorregado, como estava distante da proximidade de sempre. Não existia mais nada daquilo para mim. A pausa camuflou o fato de que me mandaram embora, mas eu me lembrei. E agora não consigo me esquecer de novo.

     Quando tudo isso chegar ao fim, será o meu fim também? Será que a pausa renovou minhas chances ou voltaremos exatamente ao ponto em que paramos, onde eu estava escorregando pelo precipício? Eu não quero ir embora, mas não sei mais como ficar. Não sei se posso ficar, se me permitem ficar. Se eu suporto ficar... Não sei se há espaço para mim ou se terei que me espremer e me encolher como um peixe fora d'água que ainda tentar respirar em uma pequena poça. Não sei se terei ar, se terei fala, se terei importância, se lembrarão de mim.

       Não sei se terei amor.

     

Cais/Caos

24/03/2020



     - Não queria ter voltado aqui - disse ela, quando se encontrou novamente sentada em frente à janela aberta para o mar.

     - Eu sei.

     - Eu estou tentando não voltar para esse estado, você sabe. Estou tentando de verdade, de verdade mesmo.

     - Eu sei - a outra voz respondeu, encarando a paisagem à frente. Como nas outras vezes, até o mar estava silencioso. - Mas eles não sabem disso. Não se esqueça de que eles não sabem.

     O olhar dela estava cheio, mas não derramava. Ela não conseguia derramar mais nada, apenas sentia seu coração doendo absurdamente. O silêncio fora de si reinava, as areias intactas.

     - E se eu tentar explicar a eles?

     Ele deu de ombros

     - É como te disse na última vez. Eles não são capazes de enxergar como você enxerga e não é culpa deles. Nem sua. Apenas não é possível.

     - De nenhuma forma?

     - De nenhuma forma.

     Mais silêncio.
   
     - Às vezes eu ainda penso muito em ir até lá - ela confessou, apontando com a cabeça para o oceano. - Sei que machucaria alguns, mas às vezes eu sinto que meus pés já estão lá, molhados. Às vezes eu sinto que na verdade não machucaria ninguém...

     - Talvez não.

     O pensamento dela vagou.

     - Eles vão embora, não vão? Mais cedo ou mais tarde, eles todos vão embora.

     - Vão.

     - Eu não acredito que poderei ser feliz quando eles forem.

     O silêncio, sempre úmido e pegajoso. O vento não soprava, o ar estava quente, o oceano lá fora era quieto e impiedoso, em sua imensidão.

     Quando a voz dele saiu, era grave e firme.

     - E você era feliz até agora?



   

Lácero

06/03/2020



Era uma fábrica de última tecnologia, onde todos os robôs eram construídos de forma completamente automática. Um lote após o outro, os homenzinhos de aço e ferro saíam com todos os componentes que precisavam para realizar qualquer tarefa no mundo. É claro, como todo o processo era automatizado, não havia ninguém para decidir quantos robôs deveriam ser feitos, para onde cada um deveria ir ou qual função deveria cumprir. Mas, inteligentes como eram, cada um deles logo econtrava um ofício e o cumpria com maestria. Ninguém ficava para trás.

Exceto...

Bom, houve um dia em que algo aconteceu. Não houve alarde, ninguém chegou a perceber (já que máquinas e robôs não percebem coisa alguma), mas um robôzinho saiu da última esteira da fábrica com uma pecinha a menos. Nem mesmo ele chegou a perceber, pois o buraquinho onde a peça deveria estar ficava bem dentro dele. Por fora, todos os parafusos e engrenagens estavam completos. Ele saiu da fábrica em um dia ensolarado, como todos os outros robôs. Andou pelas ruas em que todos andavam. Encontrou um prédio em construção onde vários homenzinhos de aço e ferro marretavam e soldavam, lixavam e cortavam.

Imediatamente, passou a marretar também. Mas entortou uma viga sem querer. Outro robô rapidamente consertou o estrago e empurrou o robôzinho para longe. Ele não entendeu nada (não fora programado para entender), então apenas escolheu outra ferramenta - um martelo - e passou a trabalhar novamente. Após dois minutos, martelou a própria mão de aço, entortando levemente um dos dedos. Três robôs o empurraram até a saída.

Mais à frente, o homenzinho capenga encontrou outros androides sentados em grandes fileiras de computadores, digitando freneticamente. Sentou-se em um que estava vazio e passou a digitar. Três horas depois, seu computador gritou um alarme e o céu sumiu em fumaça. O robôzinho foi logo expulso novamente.

Vagando pelas ruas, aproximava-se de cada grupo de semelhantes que encontrava. Ninguém dava atenção a seus bips. Grupos iam e vinham, deixando-o sozinho, ou o olhavam das antenas às rodas dos pés e afastavam-se. Ele não entendia, todas as suas peças visíveis eram exatamente iguais às dos outros de sua espécie, mas sentia que algo estava errado. Sentia que algo estava faltando. Procurava por todo o seu corpo de lata, mas aparentemente tudo estava lá. Não entendia de onde vinha aquela sensação de vazio, mas se fosse capaz de sangrar, o buraco da pecinha dentro de si teria jorrado em sangue. Depois de colecionar idas e vindas, cansou-se de ser empurrado para todos os lados vazios.

Deitou-se em um banco ao ar livre. As nuvens escuras bradaram e a água derramou sem piedade. O robôzinho, feito de aço e ferro, não sabia que não podia se molhar. Ninguém sabia. E ninguém se importava, não foram criados para se importar. Ele ficou deitado durante uma eternidade, até perceber que não conseguia mais se mover, enferrujado que estava. As articulações não obedeciam mais. As outras máquinas passavam e não o enxergavam, ocupadas demais com suas importantes funções. Ele não morreu, não podia morrer, afinal, era um robô. Ficou ali, sentindo a chuva encharcar seu corpo supérfluo imortal, a água gelada pingando e escorrendo.

Pingando e escorrendo.

Pingando e escorrendo.

O gelo chegou finalmente ao buraquinho vazio dentro dele. Doeu. A água congelante era como o vento que bate em um machucado na pele cortada, que arde. Ardeu. E continuou a escorrer. Ardeu. Escorreu, ardeu, escorreu, ardeu... Para todo o sempre.



Nem fim, nem começo


25/12/2019


Sempre será difícil.

O timbre, que só posso escutar ao longe. Os sorrisos, que nunca chegam até mim. A pele intocada, o choque que não aparece mais, o espelho que nunca mais testemunhou coisa alguma.
O aperto, rápido e insuficiente.

Eu nunca vou me acostumar.

Durante um milhão de anos, eu imaginei todas as realidades que poderiam acontecer. E eu sabia que, além delas, havia mais um milhão e meio que eu nem era capaz de imaginar. Duzentos mil caminhos que poderíamos seguir, centenas de atalhos entre eles, dezenas de escapatórias, uma dúzia e meia de trilhas completamente opostas que cada um de nós poderia adotar.

Eu não errei.

Os anos correram muito mais rapidamente do que eu imaginei, é verdade. Mas correram por um dos caminhos que eu intui. De alguma forma, eu sempre soube que seria assim. Não, eu não diria que sempre soube. Eu sempre temi que seria assim.

Eu queria ter errado.

Eu nunca vou entender as barreiras erguidas, eu nunca vou aceitar que aquele era o máximo que eu poderia ter. Porque eu sei que não era e hoje eu vejo que não era, hoje eu vejo tudo o que eu merecia e que me foi negado. Hoje eu vejo, bem na minha frente, tudo o que eu merecia e que me foi negado.

Eu nunca vou aceitar.

Deste ponto em que meus pés estão parados em diante, eu sei como será o caminho. Sei que ainda existem punhados e punhados de possibilidades e às vezes me acalma pensar que posso ser surpreendida. Mas sei que o provável caminho é de dor. Sempre será difícil. Sempre, sempre, sempre será difícil. Meu coração não se acostumará à realidade imposta a ele. Em algum rápido ponto do tempo, em algum pequeno grão da ampulheta, eu cheguei a acreditar que seria possível me acostumar. Que tudo o que preencheu meu coração um dia, desapareceria, se perderia ao longo da linha do tempo. Mas é outra linha que me liga. Um fio. Vermelho.

O caminho será de dor e sei que existe a possibilidade de a dor se multiplicar ao longo do tempo, aparecer em outros rostos, me torturar de maneiras que nem consigo imaginar ainda. Até ser substituída pela dor da ausência permanente. Qualquer que seja a ordem, o caminho e os atalhos seguidos, o que sei é que nunca mais será fácil.

Nunca mais será um lugar de paz.






Cai(o)s

     12/07/2019




     Encontrou-se sentada em uma cadeira, em frente à janela. A cadeira ao lado foi ocupada pelo outro. A vista da janela era preenchida pela paisagem da praia deserta, o mar à frente.

     - Por que tirou os óculos?

     Ele fazia a pergunta. Ela não o olhava, estava com a atenção fixa nas ondas do mar.

     - Não aguentei enxergar a verdade tão nitidamente.

     Breve silêncio.

     - Sentiu dor?

     Ela concordou com a cabeça. Ainda com os olhos fixos na paisagem, perguntou:

     - Não há nada que eu possa fazer para mudar isso, há?

     Ele negou.

     - Enxergar com as suas vistas está além da capacidade deles. Não é culpa sua. Não é culpa deles. Apenas... nunca vai acontecer.

      A angústia no peito queria ser derramada, mas ela não conseguia mais chorar.

      - Eu sempre estive sozinha?

     - Sempre.

     Silêncio.

     -  E por que eu nunca percebi?

     - O amor que sentia por eles não permitia.

     Ela entendeu.

     - E agora esse amor está mudando...

     - ... e mudará cada vez mais.

     Nem as ondas do mar falavam. Não havia vento soprando, não havia sinal de outras pessoas, não havia nenhum ruído.

     Ela se virou para ele.

     - Você acha que um dia eu terei que vir para cá de verdade? Para... me livrar dos sentimentos?

     - Para cá? - Perguntou ele, olhando à sua volta. - Ou para cá? -  apontou para o mar profundo.

     Ela deu de ombros. Ele respondeu firmemente.

     - Qualquer uma das opções poderia te libertar. Mas você não teria coragem de seguir nenhum dos dois caminhos. E não estou dizendo que deveria encontrar coragem.

     - E o que eu deveria fazer?

     Ele voltou o olhar novamente para a paisagem além da janela. Dependendo do modo como olhava, o mar parecia um convite. Um convite doloroso e libertador. Não havia som algum. O sol não brilhava. Os pássaros não estavam ali há tempos. Apenas um longo trecho de areia escura, envelhecida, e o oceano implacável.

    - Nada. Não há mais nada a ser feito.



Diagnóstico

29/05/19



     A expressão do médico era tensa, mas não havia rugas de surpresa em sua testa. Ele olhou para os papéis por uma última vez e logo depois para a paciente. Pigarreou.
     - Minhas suspeitas foram confirmadas, é exatamente o que eu havia lhe dito.
   A paciente pareceu um pouco mais surpresa que ele, como se até aquele momento ainda não estivesse completamente convencida de que estava doente.
    - O senhor pode me explicar de novo como é essa doença?
      Ele ajeitou a postura e agarrou a caneta prateada. Adotou um tom de voz afável. Mesmo não sendo a primeira vez que dizia isso, sabia o quanto era necessária a explicação.
     - Um bichinho invisível morde a sua pele. No início, você tem a impressão de que é só um comichão passageiro, mas os sintomas retornam de tempos em tempos. Cada paciente desenvolve a doença de uma maneira e por isso, os sintomas são bastante variantes. Dores no peito, um cansaço muscular tão forte que às vezes o paciente não consegue se levantar da cama, náuseas, vômitos, diarréia, falta de ar, além dos sintomas mais comuns: olhos lacrimejando a qualquer momento e narinas congestionadas. Além disso...
   Ele deu uma pausa perturbadora. A paciente, impaciente, apressou-o:
       - Fale, doutor, eu aguento!
       Ele a olhou nos olhos.
     - Bom, além de tudo isso, você precisa saber: essa doença pode levar à morte.
        Ela levou as mãos à cabeça.
      - Por que eu? Entre tanta gente por aí, por que logo eu fui atacada por algo raro assim?
  O médico negou com a cabeça veementemente.
     - Não, não, não há nada de raro nisso. Essa doença é extremamente comum. Existe desde o início dos tempos, mas nas últimas décadas, sua incidência vem crescendo de um modo alarmante. Com certeza você conhece alguém que também a possui.
        A paciente franziu a testa.
     - Não, doutor, acho que eu sou a primeira vítima que conheço.
      Ele quase sorriu, com pena.
   - É claro que ninguém te contou que também é portador. Ninguém fala sobre essa doença. Talvez nem você fale sobre ela. É algo que os outros não acreditam muito que realmente exista.
    - Como assim, não acreditam? Os sintomas são muito visíveis, o senhor mesmo disse que às vezes o paciente não consegue nem mesmo se levantar da cama.
     - Sim, mas vão dizer simplesmente que você é preguiçosa. Ou que está inventando histórias para chamar a atenção, fazendo um drama.
    - Mas e as náuseas, os olhos lacrimejando, a perda de peso?
      - Tudo drama. É o que vão dizer.
      - Mas e os casos de morte???
       Ele deu de ombros.
      - Tentativa de chamar a atenção.
      - Doutor, como eu faço para acreditarem em mim, para me levarem a sério?
       Ele pousou a caneta e o olhar. Soltou um suspiro alto.
     - Essa resposta eu infelizmente não tenho. Apesar de atingir mais e mais pessoas a cada dia, a DPRSS ainda não é aceita por todos. Até mesmo quem a possui, muitas vezes aponta o dedo para os outros e diz que eles não a têm, que o caso deles é apenas frescura mesmo. Alguns doentes preferem esconder que são portadores. Outros tentam pedir a ajuda de familiares e amigos, mas são isolados do convívio de todos. Sinto muito, eu tenho o tratamento apenas para a doença. O julgamento alheio ainda não tem cura.


Desconectada



16/04/2019

Você não estava dormindo, mas estava muito, muito cansado depois de tudo o que fizemos e fechou os olhos por um instante.
Eu, deitada sobre seu peito, olhei para cima. Do meu ângulo via seu rosto sereno, sua barba naquela altura que já começa a te incomodar um pouco, o nariz fino respirando profundamente.

Eu acho que nunca te achei tão bonito em toda a minha vida.

Eu sempre te achei bonito, você sabe. Mas... Não sei. Naquele dia, durante aqueles minutos em que você permanecia de olhos fechados, durante aquela respiração descalculada, por um instante infinito, eu te enxerguei com uma beleza que nunca havia visto antes. E me senti cheia do amor mais puro que já fui capaz de sentir.
Passei os dedos levemente pela sua barba, torcendo para que não abrisse os olhos, porque comecei a sentir os meus próprios se enchendo de lágrimas. E isso era algo que eu não poderia explicar, então você não poderia ver. Como eu iria dizer que meu choro secreto de todas as noites de repente estava querendo se revelar ali, na sua frente? Como eu poderia te fazer entender tudo o que existia naquelas gotas que nasciam de mim?

Existia a admiração por ti. A estupefação por ter em minha frente, tão colado a mim, aquele ser humano. Aquele ser, com tudo o que ele é. Existia também a dor imensa de ser quem sou. A dor de saber que o seu caminho deveria ser outro, que você precisa ir mais longe, que um dia terá mesmo que ir.

Existia também, naquelas lágrimas que tentavam se formar enquanto eu lutava para que não caíssem, a tristeza em saber que talvez meu tempo seja curto. Que talvez eu não consiga mais lutar essa luta invisível por muito tempo, que talvez eu me afogue. Essa foi minha maior dor, porque ela significava, também, te causar dor. E meu bem, eu juro, eu não consigo nem imaginar o quanto me destruiria e o quão cruel e imperdoável seria te causar alguma dor. Essa fagulha de pensamento me fisgou tão fundo que só consegui me segurar porque você abriu os olhos.

Você abriu os olhos por um pequeno instante e eu logo fechei os meus, me aconchegando melhor ao seu peito, fingindo cansaço. Ficamos mais um tempo ali, em silêncio. Eu não disse absolutamente nada sobre tudo o que se passou pela minha mente durante aqueles minutos. Não soube absolutamente nada sobre o que se passava em sua mente, como nunca sei durante esses momentos de silêncio. O silêncio também doeu e eu me lembrei como sempre me dói esse silêncio dessas horas. Como sempre me sinto isolada.
Desconectada. Completamente.



Desvios precoces

 12/11/2018

Foto: Bing Wright



     Eu sempre soube que esta estrada de chão um dia se apagaria. E eu costumava ter certeza de como isso aconteceria, sabia exatamente o que levaria as pessoas a deixarem de usar esse caminho e quais pegadas seriam as últimas a aparecer pela trilha. Mas eu não poderia estar mais enganada.
     
    O abandono veio de onde menos esperávamos. E veio cedo, tão cedo. O fio de vida que serviria como referência para a morte de todo o resto ainda nem se rompeu. Por que estão extinguindo a existência antes que a vida termine? A solidão da morte é natural e vem com o tempo. A solidão em vida é isolamento inútil, criado apenas para o sofrimento alheio.
     
     Não digo que essa foi a intenção, pois quero acreditar que a dor causada não foi proposital. Mas quero que ela seja pensada. Quero que seja algo a se refletir. Há quanto tempo ouço essas mesmas bocas falarem de amor, essas que agora proferem palavras que rasgam meu coração? Sinto-me confusa. Eu aprendi que o amor era algo a ser cultivado, ainda que em tempos difíceis. Aprendi que deveríamos nos esforçar para que nada nos afastasse, para que a força desse elo que existe desde antes de nós, nunca se enfraquecesse. Aprendi que a união era essencial para superar as dificuldades, para criar forças, para amenizar o sofrimento. Aprendi que, juntos, poderíamos subir mais degraus. E que esses avanços não nos afastariam, mas nos manteriam cada vez mais unidos, chamando outros para integrarem um grupo cada vez maior. Um grupo que possuía como base de construção, o amor.
     
     Mais de vinte anos ouvindo tais bocas falarem de amor e agora me deparo com o egoísmo imposto como certo. Será que a voz da calmaria se esqueceu de ouvir sobre o perdão? Será que tantas vozes podem ter se esquecido ao mesmo tempo? Será que sou a única que ainda acredita naquilo que todos nós pregávamos?
    
     Eu tenho cada vez menos motivos para seguir. Todos os dias penso nisso. Todos os dias, listo as razões. Todos os dias, a lista fica menor. Todos os dias eu penso sobre como as coisas eram, como as coisas estão e como minha luta para manter tudo o que eu aprendi é inútil. Todos os dias, eu penso em desistir. Todos os dias, todos os dias. 
     
    Será que em algum desses dias, vocês pensaram sobre o que estão fazendo? Será que sabem o que estão causando? Será que esse pensamento está presente durante as suas orações?
     
     Vocês deixaram.
     
     Vocês soltaram nossas mãos.