Cai(o)s

15:04 Kamila Siqueira 0 Comments

     12/07/2019




     Encontrou-se sentada em uma cadeira, em frente à janela. A cadeira ao lado foi ocupada pelo outro. A vista da janela era preenchida pela paisagem da praia deserta, o mar à frente.

     - Por que tirou os óculos?

     Ele fazia a pergunta. Ela não o olhava, estava com a atenção fixa nas ondas do mar.

     - Não aguentei enxergar a verdade tão nitidamente.

     Breve silêncio.

     - Sentiu dor?

     Ela concordou com a cabeça. Ainda com os olhos fixos na paisagem, perguntou:

     - Não há nada que eu possa fazer para mudar isso, há?

     Ele negou.

     - Enxergar com as suas vistas está além da capacidade deles. Não é culpa sua. Não é culpa deles. Apenas... nunca vai acontecer.

      A angústia no peito queria ser derramada, mas ela não conseguia mais chorar.

      - Eu sempre estive sozinha?

     - Sempre.

     Silêncio.

     -  E por que eu nunca percebi?

     - O amor que sentia por eles não permitia.

     Ela entendeu.

     - E agora esse amor está mudando...

     - ... e mudará cada vez mais.

     Nem as ondas do mar falavam. Não havia vento soprando, não havia sinal de outras pessoas, não havia nenhum ruído.

     Ela se virou para ele.

     - Você acha que um dia eu terei que vir para cá de verdade? Para... me livrar dos sentimentos?

     - Para cá? - Perguntou ele, olhando à sua volta. - Ou para cá? -  apontou para o mar profundo.

     Ela deu de ombros. Ele respondeu firmemente.

     - Qualquer uma das opções poderia te libertar. Mas você não teria coragem de seguir nenhum dos dois caminhos. E não estou dizendo que deveria encontrar coragem.

     - E o que eu deveria fazer?

     Ele voltou o olhar novamente para a paisagem além da janela. Dependendo do modo como olhava, o mar parecia um convite. Um convite doloroso e libertador. Não havia som algum. O sol não brilhava. Os pássaros não estavam ali há tempos. Apenas um longo trecho de areia escura, envelhecida, e o oceano implacável.

    - Nada. Não há mais nada a ser feito.


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Diagnóstico

19:33 Kamila Siqueira 0 Comments

29/05/19



     A expressão do médico era tensa, mas não havia rugas de surpresa em sua testa. Ele olhou para os papéis por uma última vez e logo depois para a paciente. Pigarreou.
     - Minhas suspeitas foram confirmadas, é exatamente o que eu havia lhe dito.
   A paciente pareceu um pouco mais surpresa que ele, como se até aquele momento ainda não estivesse completamente convencida de que estava doente.
    - O senhor pode me explicar de novo como é essa doença?
      Ele ajeitou a postura e agarrou a caneta prateada. Adotou um tom de voz afável. Mesmo não sendo a primeira vez que dizia isso, sabia o quanto era necessária a explicação.
     - Um bichinho invisível morde a sua pele. No início, você tem a impressão de que é só um comichão passageiro, mas os sintomas retornam de tempos em tempos. Cada paciente desenvolve a doença de uma maneira e por isso, os sintomas são bastante variantes. Dores no peito, um cansaço muscular tão forte que às vezes o paciente não consegue se levantar da cama, náuseas, vômitos, diarréia, falta de ar, além dos sintomas mais comuns: olhos lacrimejando a qualquer momento e narinas congestionadas. Além disso...
   Ele deu uma pausa perturbadora. A paciente, impaciente, apressou-o:
       - Fale, doutor, eu aguento!
       Ele a olhou nos olhos.
     - Bom, além de tudo isso, você precisa saber: essa doença pode levar à morte.
        Ela levou as mãos à cabeça.
      - Por que eu? Entre tanta gente por aí, por que logo eu fui atacada por algo raro assim?
  O médico negou com a cabeça veementemente.
     - Não, não, não há nada de raro nisso. Essa doença é extremamente comum. Existe desde o início dos tempos, mas nas últimas décadas, sua incidência vem crescendo de um modo alarmante. Com certeza você conhece alguém que também a possui.
        A paciente franziu a testa.
     - Não, doutor, acho que eu sou a primeira vítima que conheço.
      Ele quase sorriu, com pena.
   - É claro que ninguém te contou que também é portador. Ninguém fala sobre essa doença. Talvez nem você fale sobre ela. É algo que os outros não acreditam muito que realmente exista.
    - Como assim, não acreditam? Os sintomas são muito visíveis, o senhor mesmo disse que às vezes o paciente não consegue nem mesmo se levantar da cama.
     - Sim, mas vão dizer simplesmente que você é preguiçosa. Ou que está inventando histórias para chamar a atenção, fazendo um drama.
    - Mas e as náuseas, os olhos lacrimejando, a perda de peso?
      - Tudo drama. É o que vão dizer.
      - Mas e os casos de morte???
       Ele deu de ombros.
      - Tentativa de chamar a atenção.
      - Doutor, como eu faço para acreditarem em mim, para me levarem a sério?
       Ele pousou a caneta e o olhar. Soltou um suspiro alto.
     - Essa resposta eu infelizmente não tenho. Apesar de atingir mais e mais pessoas a cada dia, a DPRSS ainda não é aceita por todos. Até mesmo quem a possui, muitas vezes aponta o dedo para os outros e diz que eles não a têm, que o caso deles é apenas frescura mesmo. Alguns doentes preferem esconder que são portadores. Outros tentam pedir a ajuda de familiares e amigos, mas são isolados do convívio de todos. Sinto muito, eu tenho o tratamento apenas para a doença. O julgamento alheio ainda não tem cura.

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Desconectada

11:10 Kamila Siqueira 0 Comments



16/04/2019

Você não estava dormindo, mas estava muito, muito cansado depois de tudo o que fizemos e fechou os olhos por um instante.
Eu, deitada sobre seu peito, olhei para cima. Do meu ângulo via seu rosto sereno, sua barba naquela altura que já começa a te incomodar um pouco, o nariz fino respirando profundamente.

Eu acho que nunca te achei tão bonito em toda a minha vida.

Eu sempre te achei bonito, você sabe. Mas... Não sei. Naquele dia, durante aqueles minutos em que você permanecia de olhos fechados, durante aquela respiração descalculada, por um instante infinito, eu te enxerguei com uma beleza que nunca havia visto antes. E me senti cheia do amor mais puro que já fui capaz de sentir.
Passei os dedos levemente pela sua barba, torcendo para que não abrisse os olhos, porque comecei a sentir os meus próprios se enchendo de lágrimas. E isso era algo que eu não poderia explicar, então você não poderia ver. Como eu iria dizer que meu choro secreto de todas as noites de repente estava querendo se revelar ali, na sua frente? Como eu poderia te fazer entender tudo o que existia naquelas gotas que nasciam de mim?

Existia a admiração por ti. A estupefação por ter em minha frente, tão colado a mim, aquele ser humano. Aquele ser, com tudo o que ele é. Existia também a dor imensa de ser quem sou. A dor de saber que o seu caminho deveria ser outro, que você precisa ir mais longe, que um dia terá mesmo que ir.

Existia também, naquelas lágrimas que tentavam se formar enquanto eu lutava para que não caíssem, a tristeza em saber que talvez meu tempo seja curto. Que talvez eu não consiga mais lutar essa luta invisível por muito tempo, que talvez eu me afogue. Essa foi minha maior dor, porque ela significava, também, te causar dor. E meu bem, eu juro, eu não consigo nem imaginar o quanto me destruiria e o quão cruel e imperdoável seria te causar alguma dor. Essa fagulha de pensamento me fisgou tão fundo que só consegui me segurar porque você abriu os olhos.

Você abriu os olhos por um pequeno instante e eu logo fechei os meus, me aconchegando melhor ao seu peito, fingindo cansaço. Ficamos mais um tempo ali, em silêncio. Eu não disse absolutamente nada sobre tudo o que se passou pela minha mente durante aqueles minutos. Não soube absolutamente nada sobre o que se passava em sua mente, como nunca sei durante esses momentos de silêncio. O silêncio também doeu e eu me lembrei como sempre me dói esse silêncio dessas horas. Como sempre me sinto isolada.
Desconectada. Completamente.


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