Outra noite de ruas vazias

24/07/2011

 Seus passos ecoam no silêncio da noite e ela se pergunta se mais alguém está escutando. Olha em volta, mas não há ninguém. A escuridão da noite é profunda de novo. Ela anda devagar, sem a intenção de chegar a lugar nenhum.
Está frio. Ela veste o casaco e cruza os braços, tentando se aquecer. Continua andando, sem saber para onde. Está tarde. Talvez isso explique a ausência de pessoas nas ruas. Ela tenta se lembrar quando foi que começou a sentir essa ausência, quando foi que começou a incomodá-la. Não sabe. Mas sabe que o que a leva a sentir-se assim, o que a leva a andar pelas ruas sem destino é aquela pequena solidão constante. Uma daquelas coisas das quais só poderia se livrar se deixasse de ser humana. Uma daquelas coisas intrínsecas à sua alma. Uma daquelas coisas que a faz se reconhecer.
Andar sozinha cansa. Há algo em seu corpo que a faz continuar caminhando e se não fosse isso, já teria desistido há tempos. Há algo sem sentido que a faz continuar. Há um desejo em seu coração que ela tenta esconder e que a fortalece um pouco. Há uma vontade estranha de viver mais um pouco. Há uma música em sua cabeça, algumas histórias em suas lembranças e um suspiro em sua respiração. Há algo que a faz querer caminhar.
Seu único desejo no momento é saber para onde deve ir. Não se importa com a direção desde que encontre alguma coisa boa no caminho. Ela sabe que pode encontrar, sabe que pode haver algo de bom lá na frente. Ela só precisa saber qual é o caminho, só isso.
Por um instante, pára de caminhar, olha para o céu e pede por alguma coisa. Algum sinal, alguma orientação dizendo para onde deve ir. Ela olha para o céu escuro e espera.
Mas é noite de lua nova, não há nenhuma luz para guiá-la.

O diálogo inexistente

25/06/2011

 Eu não percebi quando ela entrou no ônibus. Distraída como sou, não percebi nem mesmo quando se sentou ao meu lado. Só notei sua presença algum tempo depois, quando afastou os cabelos do rosto e enxugou algumas lágrimas.
Eu não a conhecia, mas ela se parecia com muitas garotas que andam por aí. Fones de ouvido, olhar perdido na paisagem lá fora. Devia ter mais ou menos a minha idade, talvez um pouco mais nova. Não tinha nada que chamasse a atenção, exceto a situação em que se encontrava: estava chorando.
Não tive nenhuma reação imediata. Não sabia o que deveria fazer. Talvez devesse ignorar sua presença, do mesmo modo que me ignorava. Mas a minha vontade era de me virar para ela e dizer:
- Não fica assim não... As coisas vão melhorar, acredite.
Ela se viraria para mim e diria, ainda com lágrimas nos olhos:
- Eu não entendo. Por que tudo tem que ser tão difícil assim?
- Eu não sei. Eu busco as mesmas respostas que você busca, há um bom tempo. Até hoje não descobri em qual sentido o mundo gira e por isso também fico um pouco tonta às vezes.
- Por que as coisas não podem ser do jeito que eu gostaria, pelo menos uma vez na minha vida?
Nesse momento ela desviaria o olhar e eu ficaria um instante calada. Depois diria, um pouco para ela e um pouco para mim mesma:
- Ah, menina, como eu queria que as coisas fossem simples assim.
Seria a vez dela de ficar calada. Depois, voltaria os olhos para mim, ainda cheios de lágrimas.
- Eu quero esquecer de tudo o que eu estou sentindo. Como é que a gente faz para enterrar um sentimento e não pensar nisso nunca mais?
Desta vez, eu que desviaria o olhar. E diria:
- Sentimento a gente não enterra, menina. A gente deixa doer até achar que não vai dar pra aguentar. Aí a gente descobre que aguenta sim, que a gente é forte. E uma hora tudo passa.
Nós ficaríamos em silêncio por um tempo. Então eu apertaria levemente uma das mãos dela, sorriria um pouco e me levantaria. Desceria do ônibus e a deixaria seguir com as minhas palavras em sua mente.
Mas é claro que nada disso aconteceu. Em vez disso, eu permaneci calada e ela também. Durante todo o caminho ela chorou, as lágrimas caindo silenciosamente, o olhar voltado para a janela. Então o ônibus parou, ela se levantou, passou por mim sem me ver e foi embora.

O que me faz ficar aqui

07/05/2011

 Ainda existe, em algum lugar dentro de mim, aquela garota que quer ir embora. Desaparecer, fugir. Sem contar a ninguém, sem olhar para trás. Não vou a lugar nenhum, é claro, nunca fui. Mas vez ou outra, quando entro em um vagão do metrô ou quando olho através da janela de um ônibus e vejo o mundo lá fora, ainda surge aquela vontade de não ir ao lugar onde pretendia ir e deixar que o destino escolha meu próximo paradeiro.
É claro que nunca segui este impulso. Não por falta de coragem ou de oportunidade, mas por saber que em qualquer lugar que eu vá, ainda serei eu mesma. Posso fugir das pessoas, das obrigações impostas, de alguns problemas. Mas ainda terei minha consciência apontando minhas falhas. E andarei em círculos, deparando-me com as mesmas antigas decepções, provocadas por novas pessoas. Posso deixar tudo para trás, mas nunca me livrarei de mim mesma. E minha vida me seguirá em qualquer lugar, o que torna inútil a vontade de ir. Eu não poderia ir embora, mesmo se quisesse.
Mas esta vontade tem aparecido cada vez com uma frequência menor. E confesso que quando ela surge, não penso mais em como eu poderia ir. Penso nos motivos que tenho para ficar. Porque hoje, quando o silêncio da noite é muito profundo, o telefone costuma tocar, o que antes raramente acontecia. E em vez de permitir que os pensamentos embaralhem minha mente, eu permito que um sorriso se forme em meus lábios. Porque não me importo mais com aqueles que me mostram os problemas do mundo e da minha vida. Não importa o quanto algumas coisas são imperfeitas, um sorriso bonito me lembra o quanto alguns momentos são perfeitos.
E hoje posso dizer que eu iria a qualquer lugar do mundo, desde que pudesse voltar para casa no fim do dia. Talvez eu não tenha coisas extraordinárias na minha vida, mas tenho pessoas extraordinárias. E hoje eu sei que também sou importante para algumas delas. Eu iria a qualquer lugar do mundo, mas sempre voltaria. Pelas pessoas.

Liberdade

10/03/2011

 Não é como se eu estivesse de mãos atadas. Nasci com livre arbítrio, ao menos é o que dizem. Mas não posso e isso é tudo o que sei. Ouvi um homem dizer que não sou livre se não conseguir dizer não a mim mesma. Então talvez eu não seja mesmo livre. E talvez a minha forma de conduzir a vida seja tão absurda que escolho negar a liberdade para que não precise negar o que minha alma deseja, o que meu coração busca, o que meu corpo quer. Não sou livre, mas é isso o que me faz possuir as palavras. E se sou escrava de algo, que seja de mim mesma e de minhas palavras.
E afinal, que vantagens teria em conseguir dizer não para tudo e qualquer coisa, se o que me faz sentir melhor é justamente dizer sim em algumas situações? Não entendo quem divide as escolhas entre certas e erradas se escolhas são apenas escolhas, com suas consequências boas e ruins. Hoje me sinto disposta a olhar para o céu durante o dia até que a claridade do sol arranque lágrimas dos meus olhos porque sei que hoje as lágrimas não serão de tristeza. Mas nos dias em que forem lágrimas tristes, qual o problema em fechar meus olhos? Por que não posso ignorar algumas verdades por um tempo?
A vida é bonita sim, mas é como um cristal brilhando sob o sol quente. É bonito de se olhar, às vezes é bonito até mesmo quando se espatifa no chão. Mas seus pequenos pedaços são cortantes, ferem. Eu ando com os pés descalços, o coração aberto. Tenho todo o direito do mundo de evitar pisar em cacos de vidro.

Seis minutos

21/02/2011

 Não é necessário muito tempo para que uma vida mude. A cada segundo o mundo sofre mudanças, às vezes tão pequenas que são quase imperceptíveis. Já observou o quão rapidamente as cores do céu costumam mudar? Eu não consigo enxergar todos os tons de azul. Mas sei que eles estão em constante mudança.
Também não são necessárias muitas coisas para que uma vida mude. Uma palavra, um gesto, um rápido pensamento e voilà: o mundo inteiro está diferente. Mais rápido que um piscar de olhos. O que realmente leva tempo é digerir e entender a nova realidade. E constantemente o tempo que levamos para aceitar as mudanças corresponde ao tempo que o mundo leva para mudar tudo de novo.
Seis minutos. É o tempo que levo para me levantar da cama depois de acordar, todos os dias. É o tempo que gasto para praticar pequenas ações do cotidiano. É o tempo exato que levo para sair da minha casa e chegar em um lugar que costuma me deixar alegre. E é o tempo que leva para que o mundo inteiro mude. Seis minutos. Quantas coisas inacreditáveis podem acontecer nesse espaço de tempo? Quanto desse tempo é usado para pensar em uma possibilidade e quanto é usado para tomar uma decisão? Existe espaço para a dúvida dentro destes seis minutos?
Eu não sei responder nada. Não sei nem mesmo de quanto tempo precisamos para compreender tantas mudanças repentinas. Talvez não estejamos prontos para entender. Ou talvez entender não seja assim tão importante quanto aceitar. Talvez não somos nós os responsáveis por explicar.
O que sei é que às vezes a única coisa que podemos fazer para contornar as mudanças desagradáveis é torcer para que não demore muito mais que seis minutos para que tudo mude de novo. E para melhor.

Aquela pequena solidão constante

13/01/2011

 Você respira lentamente e mantém o olhar fixo na paisagem à sua frente enquanto percebe. Não é difícil ver, mas talvez não seja fácil admitir. Você olha ao seu redor fingindo distração e constata o que quase ninguém vê: Você não pertence a lugar nenhum.
O olhar é desviado quando encontra outro olhar qualquer, quase inconscientemente, contra a sua vontade. Não queria desviar, pelo contrário, queria saber olhar nos olhos. Queria saber ganhar a curta e completa atenção que um olhar é capaz de proporcionar. Queria ser vista e ser guardada na memória por causa de um detalhe qualquer. Mas como é que se aprende a não desviar um olhar?
Talvez tudo isso tenha surgido daquele antigo medo de se envolver. Mas se esse medo bobo foi superado há tempos, por que suas consequências ainda se refletem nas poucas palavras, no silêncio de quem não sabe o que dizer? Às vezes o rosto inexpressivo até sugere uma certa falta de interesse. Mas não, ah não. O seu interesse pelas pessoas é o que te move, é o que te empurra para seguir em frente. Existe amor pelas pessoas dentro de você, um amor grande demais. Esse é o seu erro, menina. O seu amor é tão grande que te faz perder o amor por si mesma. E o amor por si mesma deveria ser o teu amor mais venerado porque talvez seja o único verdadeiro. Não é que as pessoas não gostem de você, entenda. Elas gostam, algumas delas até bastante. Mas é que você... É difícil explicar. Você é... Ah, como é que alguém pode gostar de quem desvia o olhar e evita a troca de palavras? Não é sua culpa, eu sei que não. Mas também não é culpa dos outros. Você simplesmente não se encaixa. Em lugar nenhum.
Mas não é necessário nenhum pequeno desespero. Porque no fundo, ninguém se encaixa. Somos quase 7 bilhões de solitários lutando para tentar não desviar o olhar dos outros, todos nós. Todos nós, lá no fundo, temos essa pequena solidão constante e essa vontade de mudar. Mas não mudamos.
E no fundo, a única pessoa que você tem é a si mesma. Como todos nós.

Uma pequena omissão

29/07/2010

- Oi.. Tudo bem?

(Não, não está. É claro que não. Não está tudo bem porque eu estou cansada de tudo isso, completamente exausta. Estou cansada dessa espera, desse medo e dessa insegurança. Estou cansada de ter que fazer o que preciso fazer em vez de fazer o que realmente quero. Não está tudo bem porque sei que muitas coisas ainda estão por vir e não sei o quanto precisarei ser forte e nem sei se conseguirei ser. Não está tudo bem porque hoje eu distribuí um punhado de sorrisos falsos e contei uma mentira, coisas que odeio ter de fazer. Não está tudo bem porque tenho a sensação de que vivo a vida de outra pessoa, enquanto espero o dia em que poderei viver a minha. Não está nada bem porque eu já não consigo dormir nem comer direito e não sei como meu corpo ainda aguenta esse coração tão pesado que carrego aqui dentro. Não, não está tudo bem. Eu já não sei porque ainda acordo todos os dias e enfrento o mundo lá fora, não sei porque continuo seguindo essa rotina sem sentido, não sei porque estou aqui, não sei porque ainda respiro. E não está tudo bem porque gostaria de poder falar tudo isso, mas não posso.)

- Tudo. E você?

Interlúdio

06/04/2010



Hoje o céu está bonito, talvez mais do que o normal. As estrelas brilham com força. Mas elas estão longe demais.
O fato é que as pessoas constroem castelos de cartas mesmo sabendo que mais cedo ou mais tarde eles irão desabar. Um silêncio incômodo dominará o espaço, roubando todas as palavras que estavam engasgadas na garganta. Não haverá mais nada para ser dito e o sorriso de mentira não convencerá mais ninguém. Eu sei disso porque ando em círculos e já vi essas verdades se concretizarem. Esse interlúdio de felicidade não faz parte da minha vida.
Mas eu estou preparada para os pequenos desastres. As estrelas distantes machucam sim, não posso negar. Mas já estou acostumada. Essa pequena felicidade não me pertence. Tudo isso vai se desvanecer um dia, como uma daquelas estrelas distantes que um dia param de piscar. O céu fica um pouquinho mais vazio, mais escuro, mais triste. Mas ainda é o mesmo céu.
Quando esta pequena felicidade for embora, eu a deixarei ir. Não posso segurá-la por tempo demais porque nada disso pertence a mim. Nenhum desses sorrisos é meu, eles só estão aqui por um pequeno espaço de tempo.
Portanto, se o castelo de cartas tiver de desabar, desabe. O fim das coisas é apenas mais uma rotina da vida.

Pedras

23/02/2010

É que esse pedaço da estrada em que estou representa o começo de um caminho e este exato lugar em que estou parada pode determinar o restante do caminho inteiro. É por isso que não queria que houvesse uma pedra aqui. Bem aqui. Se fosse no resto do caminho, tudo bem, eu me livraria dela. Passaria por cima, chutaria pra longe, sumiria com ela. Mas aqui... Aqui não dá. Aqui não pode haver pedra. Eu preciso caminhar com tranquilidade agora, sem tropeçar. Se eu cair, não vou conseguir me levantar. Estou dizendo, não vou. Eu não posso cair, não agora.
O tempo está passando. Daqui a pouco vou descobrir com o que estou lidando. Não vai demorar muito e isso me assusta. Torço para que o caminho seja plano, para que eu consiga enxergar o horizonte e para que tudo dê certo. Torço para que eu não consiga parar de sorrir enquanto ando por este caminho.
Torço para que não exista pedra alguma.

Mais um fim

13/02/2010



Eu poderia dizer um milhão de palavras bonitas só para preencher este silêncio vazio que pede resposta. Mas não direi, não desta vez. É melhor me calar porque talvez, se ninguém falar mais nada, aquele ponto final possa realmente significar um fim. Pela primeira vez, um final de verdade. Um fim e depois nada, só o silêncio da noite e o frio do inverno.
Mas não era isso que eu queria. É claro que não. Quem é que quer presenciar o último suspiro, a última tentativa frustrada? Quem é que quer ver a morte das coisas, a esperança indo embora, os pedaços do que restou sendo jogados fora? Ninguém gosta de dar um fim em tudo, mas é isso que a gente faz quando alguém diz que tem que acabar. A gente coloca um ponto final. Depois, ironicamente, a vida multiplica o ponto e o transforma em reticências. Terminamos com tudo, mas a vida não. Não existe mais nada senão um vazio profundo, mas a vida dá mais tempo. E o que faremos com o tempo interminável que existe depois do fim? Eu não sei.
Não existe mais nada.
E isso nunca acaba.